terça-feira, 7 de maio de 2013

Crônica - Parks and Recreations



E FOMOS JUNTOS AO PLAYCENTER...




Ontem, o Playcenter fechou as portas. Para sempre.

Tenho certeza que, intimamente, muito marmanjo da minha idade suspirou com essa notícia. Dá para entender que, no ritmo do progresso – inclusive no que tange o entretenimento –, o bom e velho parque de diversões que decorou a paisagem de “Sampa” durante décadas ficou obsoleto. É hora, portanto, de ser aposentado e substituído.

Mas que adulto nascido ou criado nesta cidade não tem sua própria coleção de memórias afetivas do famoso logradouro onde viviam a Monga, as criaturas do “Castelo Assombrado” e os zumbis das “Noites do Terror” – sem mencionar os infames bichinhos mecânicos do “Show dos Ursos” e da “Montanha Encantada”?

Eu tenho uma porção!

* * *

Na casa de minha mãe, pegando poeira em um armário de cerejeira, há slides tirados por meu falecido pai que mostram o Playcenter em diversas fases. O lugar era sempre um gigantesco e colorido cenário para as minhas peripécias e as do meu irmão, que nem conseguíamos dormir às vésperas de nossas visitas regulares ao parque.

Alguns desses slides são relíquias: neles, vemos o Playcenter em sua fase mais rudimentar. Datados de 1973 ou 74, os cromos mostram a gente em cima de potrinhos de verdade, que marchavam em volta de uma base de fibra de vidro (este foi o primeiro carrossel do parque, muito antes de toda aquela pirotecnia do “Enterprise”, do “Barco Viking” e da “Montanha Encantada” se concretizar).

* * *

Isso também foi antes do “Passaporte da Alegria” – supostamente uma barganha, pela qual o visitante pagava um preço único e podia desfrutar de todas as atrações. Rá, rá – que lorota! Com filas que excediam os 40 minutos de espera, alguns dos brinquedos mais disputados eram virtualmente inacessíveis em dias de “casa cheia”. Você pagava, mas não tinha qualquer garantia de que brincaria no “Samba”, no “Bicho da Seda” ou na “Casa Maluca”.

* * *

O Playcenter tinha um cheiro e uma atmosfera próprios. Era um odor de pipoca, de caramelo, de chocolate (este último, oriundo da barraca do favo holandês) e de asfalto quente, insinuando-se por nossas narinas enquanto percorríamos as quatro alas do parque.

Nessas andanças, aquela grande tenda marrom ao lado da “Montanha Encantada” (se não me falha a memória) era um tipo de “posto avançado”. Ali os garotos brincavam de soldados, atirando descerimoniosamente em cabeças imóveis de palhaços; ou perdiam algum dinheiro alegremente em joguinhos de azar muito mambembes, mas que cumpriam seu papel na mística do lugar.

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Sim, pois nem só de engenharia era feito o Playcenter. A simplicidade de certas coisas – a mediocridade das guloseimas e até as ocasionais falhas técnicas nos brinquedos – eram parte da brincadeira.

O Playcenter era legal assim: meio subdesenvolvido, meio imerso na poluição da Marginal, meio “cheio demais” e, mesmo assim, transcendente. Queríamos metralhar aqueles ônibus de excursões que atracavam no estacionamento logo cedo, triplicando a população do parque. E avacalhávamos a organização do empreendimento, comparando-o à Disney e afins.

Mas, no fundo, já tínhamos saudades do parque tão logo a “Super Jet” (a quem interessar, este era o “nome de batismo” da montanha-russa) se tornava um ponto distante nos retrovisores dos carros de nossos pais.

* * *

A última vez que estive no Playcenter foi com uma garota que amei perdidamente nos tempos de faculdade. A sugestão – original, diga-se de passagem – partiu dela: passaríamos um dia no parque, comemorando meu aniversário de 20 anos.

Tinha tudo para ser uma curtição, mas não foi exatamente uma Brastemp: uma vez lá, ela jogou duro e, naquele dia, não me deu um beijinho sequer – e olha que fiz malabarismos pra conseguir meu prêmio (inclusive suportando heroicamente o horrível “show dos ursos”, que ela queria tanto assistir).

Bem, pouco importa: as lembranças daquele dia também são as últimas que tenho do parque. E, por extensão, de uma infância simples, mas feliz; e do meu pai – que tantas vezes abdicou de suas manhãs de domingo para nos proporcionar algumas horas mágicas no Playcenter.

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Ao longo dos anos, houve incidentes infelizes no parque – inclusive, alguns acidentes fatais. Mas creio que, no balanço geral, o Playcenter velho-de-guerra deixa um saldo positivo.

Igualzinho àquele meu amor de faculdade: o que é a dor de um beijo negado em comparação ao prazer dos que foram concedidos?

Acho que deveríamos ser gratos.

P.S.: Para fechar com chave de ouro: o “King Kong” do filme de 1977, que foi exibido no parque para deleite da criançada da época; a “Casa do Monstro”, cujas aberrações mecânicas tiravam o nosso sono; e a “Montanha Encantada”, que, noves fora, tinha lá seus encantos (isso é, até privarem o brinquedo daquela descida vertiginosa que encerrava o passeio, deixando todo mundo ensopado; bons tempos, “seu” menino; bons tempos).









Crônica - Cães II



SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO




Yan, meu lhasa-apso de estimação, foi para o Céu dos cachorrinhos há coisa de três semanas. Foi um nocaute. Passei dois dias chorando como uma garotinha, mas agora estou melhor. Mentira, não estou não. Ainda choro como uma garotinha – mas, de uns dias para cá, só no carro, à noite, quando volto do trabalho para casa.

É esquisito abrir a porta da sala e não vê-lo ali. Yan era um cachorro de apenas 8 kg, mas parecia ocupar todos os cômodos, cada recôndito da área social, do quintal ou da lavanderia. À noite, quando me levanto para beber água ou ir ao banheiro, ainda olho por onde piso. Em minha mente, ele ainda está por ali, fazendo aquelas incursões noturnas que todo cachorro faz. Mas, claro, é só minha imaginação. Uma “sensação fantasma”.

Dizem que acontece o mesmo com quem perde um braço ou uma perna. Durante semanas, o amputado tem a impressão de que o membro continua ali. Sente coçar um braço que deixou de existir. Tem câimbras em uma perna que lhe foi retirada. Curiosa é a relação do ser humano com a perda.   

* * *

Sempre simpatizei com cães, mas nunca tivera um deles. Ingenuamente, achava que perder um comparsa peludo fosse uma experiência triste, mas que não se equiparasse à perda de um membro da família. Eu estava errado: o vazio, o buraco que fica na alma da gente, é o mesmo. Se há algum atenuante é a noção de que, quando vêm ao mundo, cães estão largados à sua própria sorte. São bichos domesticados, não sabem se virar sozinhos. Foram excessivamente “humanizados” e não dispõem de meios para sobreviver no mundo dos homens, esta espécie hedionda e moralmente antropofágica que violenta os próprios filhos (e os filhos dos outros) e não se sensibiliza mais com os infortúnios impostos à sua própria raça, que se dirá a animais quadrúpedes.

Aí, tenho um consolo: Yan deu uma sorte danada. Foi adotado por uma família que o amou incondicionalmente. Jamais teve um dia miserável. Jamais sequer sangrou. Na velhice, diabético, teve quem cuidasse dele, quem lhe aplicasse injeções de insulina, quem o alimentasse na hora certa – minha mãe, que o tratou e acalentou como um bebê humano desde os primeiros dias de vida. Eu mesmo não sei se contarei com essas regalias quando estiver velhinho. Mais: suspeito que morrerei de câncer ou de forma igualmente desagradável. Yan morreu de um ataque do coração. Não sentiu nada – se a gente soubesse, de antemão, que o fim seria assim, jamais teria qualquer motivo para temer a vida.

Dos males, o menor. Meu único trabalho, agora, é administrar a perda. Estou pagando o ônus por 12 anos de muita felicidade. É justo.

* * *

Depois de um primeiro e pavoroso fim de semana sem o Yan, sobreveio o feriado de Páscoa e achei – não sei por que – que seria uma boa ideia dar uma passada na casa da minha mãe e levá-la à tradicional missa celebrada no bairro de Santana por ocasião das sextas-feiras santas. Que egoísta eu sou: a última vez que havia pisado em uma igreja fora há dez anos, na missa de sétimo dia do meu pai. Assumo ser um desses covardes que só buscam o consolo espiritual nas horas difíceis. Bom, pelo menos, sou sincero.

A Matriz de Santana está igualzinha ao que era em minha infância – passo na frente do templo quase toda semana, mas de carro, sempre às pressas. No fundão da igreja, de pé, assisti a um quarto da missa. Foi o máximo que aguentei, mas apreciei a sensação de quietude proporcionada pelo prédio.

É quase como se um campo de força acústico-espiritual isolasse a edificação dos sons mundanos da rua. Ouvi, pela enésima vez, o relato da prisão de Jesus, os argumentos de acusação contra Sua pessoa, e, por fim, os sórdidos detalhes de Sua execução. Dessa vez, a mise-en-scène se resumia a um locutor lendo, emocionado, aquele libreto de missa – nada muito espetacular. Mas, em outros tempos, nessa mesma igreja, os párocos recorriam até a montagens teatrais para recriar, diante do público, os lances mais impactantes da Paixão.

Em 1979, o teatro foi tão bom, mas tão bom, que houve reprise do espetáculo na missa de sábado. Lembro de chegar esbaforido à frente da igreja e perguntar ao sacristão: “Já julgaram Jesus? Não? Dá licença, deixa eu entrar.”

* * *

No espírito em que eu me encontrava, talvez tivesse assistido à missa na íntegra na última sexta-feira santa. Mas o sermão me demoveu dessa ideia. Hoje sei qual é o problema desses rituais litúrgicos quando você é (ou tenta ser) um livre pensador: ministrado no meio da missa, o sermão é um tremendo anticlímax. É como se você estivesse vendo um filme e, no meio da projeção, as luzes se acendessem e um crítico aparecesse ali na frente, fazendo suas considerações sobre o longa-metragem que, até então, você acompanhava com interesse. Melhor seria se o sermão ficasse para o fim, cabendo a cada um a decisão de ouvir ou não as considerações do padre. Crítica no meio do espetáculo não tem condições!

Fui fumar um cigarro lá fora e, como se contratados por um astuto diretor de elenco, personagens da minha infância começaram a se materializar à minha frente – primeiro, o Gelol, amigo do meu irmão na Comunidade de Jovens e que eu não via desde 1985 (ou 86). Conversamos, rimos, atualizamos um hiato de duas décadas. De repente, não mais que de repente, também surgiram meu primo Ronaldo e – pasme! – minha professora de catecismo. E muitas outras pessoas das quais eu não me lembrava mais. O assunto do cachorrinho veio à tona e aquela boa gente – aqueles fantasmas redivivos – me consolou, me abraçou, me deu tapinhas nas costas e até me fez rir. Quem diria? Estávamos conectados de novo, após anos de separação. E, no minuto seguinte, cada um seguia seu rumo, de volta à sua própria vida.

* * *

O que a última sexta-feira da paixão me ensinou foi que, quando nos lembramos de nosso passado, nos tornamos mais resistentes aos nocautes do presente. Situações assim – reencontros fortuitos e marcantes, como estes – nos fazem ver que, antes do “hoje sombrio”, houve incontáveis “ontens felizes”. E que morremos e renascemos um sem-número de vezes nessa vida, embora tendamos a nos esquecer disso e a supervalorizar a dor mais recente. Isso, é claro, não exclui o sofrimento, o vazio deixado por uma perda. Mas nos lembra de que viver é testemunhar uma sucessão de anoiteceres e amanheceres. E de que, entre estes – acredite, sei o que estou dizendo –, é possível (bem possível) a gente ser feliz.

Tchau, Yan. Obrigado por tudo. Com seus 8 kg de alegria e amor, você fez uma enorme diferença.

De modo algum foi tempo perdido.


Crônica - Fantasmas



HISTÓRIAS DE FANTASMAS




Pouco antes das onze, o papo no boteco enveredou pelas brumas do fantástico, do inexplicável, do sobrenatural. Bom, mais ou menos: o clima era descontraído demais, ao menos em comparação ao de uma sessão espírita ou, sei lá, do exorcismo da Emily Rose. “Não acredito em fantasmas, em anjos ou em Deus”, bradou meu amigo, olhos injetados de birita e com uma determinação vitorbelfortiana de nocautear qualquer Gasparzinho ou espectro não-camarada que por ali passasse.

Comedido, desviei-me estrategicamente do tópico “Deus”. Também me abstive de discutir o sexo dos anjos, mas tive que dar razão a ele no que se refere aos fantasmas. É fato: embora funcionem bem no cinema, assombrações só podem ser contos da carochinha.

* * *

Acompanhe meu raciocínio.

O sujeito é advogado, físico nuclear, neurocirurgião ou conferencista. Já defendeu teses importantes, palestrou em universidades e cativou centenas de pessoas com sua lucidez e eloquência (sem mencionar seu senso de humor oportuno e inteligente).

Entretanto, ao morrer, a primeira coisa que faz é se cobrir com um lençol, esconder-se no sótão e gritar “Buuu!” para o primeiro infeliz a lhe passar pela frente.

Não, não!

Isso não faz sentido...


* * *

O leitor pode contra-argumentar, me garantir que “as coisas não são bem assim”. Afinal, Hollywood nos mostrou fantasmas BEM assustadores. Tipo aqueles do “Iluminado”, do “Sexto Sentido” ou do “Chamado”.

Lençóis – consideremos a alternativa – poderiam ser os “modelitos” usados por defuntos pouco imaginativos. Digamos, a “gente diferenciada” do limbo, a classe C do plano astral. Pense naquela cantora Joelma.

Um fantasma de respeito recorreria a truques melhores para arrepiar os cabelos dos vivos. Talvez a Wetta Digital (ou aquele maquiador artístico famoso, Rick Baker) tenha uma filial no além, atendendo aos defuntos abastados que podem pagar por “scary looks” mais legais – machados enterrados na testa, faces parcialmente destruídas e com os ossos se projetando da pele, enfim...

É como o Carnaval: quem pode torrar R$ 1.500,00 em uma boa fantasia aparece na Globo. Quem não pode se contenta em curtir a folia usando chinelo de dedo e sacolinha do Carrefour na cabeça.

* * *

Se o além for mesmo como nos filmes, acho que estão faltando, por lá, alguns programas de motivação. Workshops que auxiliem a alma penada a dar um passo além, a progredir no plano não-corpóreo.

Que tremendo desperdício de energia passar a eternidade assustando os vivos! Afinal: os vivos já têm muito com que se assustar. As prestações do financiamento, faturas do cartão com mais de quatro dígitos, inspeção veicular, renovação do seguro do carro, a sucessão da Dilma, a décima terceira edição do Big Brother...

É infindável e eclético o purgatório que nos rodeia. Neste cenário, quem tem medo de um espectro macilento a nos observar malevolamente do canto da sala?

De fato, em certos noites – em momentos críticos do mês –, periga eu convidar o fantasma pra tomar umas e outras por minha conta. Contanto que ele me ouça e não me julgue.

Entende..?

* * *

Fato é: os fantasmas estão perdendo grandes oportunidades, considerando o que podem fazer quando abandonam os limites da carne, quando se divorciam das leis do tempo e do espaço.

Por exemplo: o que um fantasma “macho” ganharia assombrando o meu apartamento, quando poderia espiar a Ana Hickmann pelada no chuveiro sem ser processado por assédio? Sem considerar o cenário: há terreiros mais interessantes para “baixar” que o meu humilde cafofo.

Certos, mesmo, estão os fantasmas da Inglaterra ou da Irlanda, que levam um vidão digno da Revista “Caras”. Ok, não há castelos para assombrar no Brasil – entretanto, na qualidade de fantasma, eu já me contentaria em assombrar uma suíte do Maksoud Plaza ou um daqueles hotéis chiquérrimos da Amazônia.

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Quando estiver “do outro lado” (se é que existe um “outro lado”), também questionarei os métodos de comunicação empregados pelas almas penadas para se comunicar conosco. Sou jornalista. Interessam-me essas coisas. Tenho autoridade para garantir que, embora fosse um bom truque em 1820, recorrer a uma tábua Ouija ou a um copo para formar sentenças muito longas é dos métodos mais ineficazes para se fazer entender.

Ainda mais hoje em dia, quando estamos na era do “Facebaak” e do Twitter. Até as TVs, agora, se conectam à Internet. Soletrar sentenças muito extensas (por exemplo, “todos nesta sala morrerão, a começar dos que não acreditam!”) é contraproducente e desgastante. E, do ponto de vista da plateia, uma experiência enfadonha.

Assombre-me, me assuste...

Mas não me faça perder tempo.

E “Buuu” pra você também!




Crônica - São Paulo II



"I LOVE NU IORKI!"




Caro primo Anthony, how do you do?

Sei que o meu Inglês é sofrível e que eu nem deveria exercitá-lo nesta cartinha, cujo objetivo é apenas lhe perguntar como vão as coisas aí na América e, na via contrária, contar-lhe como vão as coisas aqui em “Sampa”, apelido carinhoso dado à maior cidade do país. Rapaz, escreva o que digo: vamos de vento em popa! Parece que a determinação dos nossos governantes é transformar São Paulo, que um dia se contentou em ser a terra da garoa, na “Nova York brasileira”. Temos muito chão pela frente, mas posso afirmar com segurança: pelo menos ao Bronx nós já chegamos!

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O primo sabe que sou um cidadão cumpridor das leis. Não me meto em encrenca, tenho a cabeça no lugar. Daí porque tenho penado ao fazer minha parte na hercúlea tarefa de construir a Manhattan tupiniquim com que sonham os nossos líderes! Veja: eu dirijo veículo automotivo. Não é nenhum Jaguar ou BMW. De fato, não é grande porcaria, embora seja limpinho e me leve aonde eu quero. Em compensação, por ser um modelo popular, não dou trabalho! Sou peixe pequeno. E não é que, mesmo assim, elegeram-me o vilão do filme? A KGB do trânsito “encrespou” com a numeração da minha placa. Não conta pra ninguém, mas ando pensando até em consultar uma numeróloga em busca de uma combinação de caracteres com melhor astral. Porque não é possível, a atual está zicada!

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É com o meu “possante” que eles estão preocupados. Sou eu o elemento-chave nas aferições do sucesso ou fracasso da inspeção veicular obrigatória. O engraçado é que o cara à minha esquerda (aquele pilotando uma Kombi cujo motor “fuma” mais que o Kate Richards e o Humphrey Bogart juntos) e o cara à minha direita (o caminhoneiro mal-encarado que parece o Toecutter do “Mad Max”) não estão nem aí pra light. Expelem mais porcariada no ar do que aquela usina japonesa que deu “tilt” no ano passado, mas seguem impávidos por aí.

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Também puseram minha cabeça a prêmio porque uns imbecis daqui andaram atropelando pedestres e ciclistas, o que é mesmo um horror. Eu apoio a causa – pedestres e ciclistas devem ter prioridade em eventuais situações de confronto no trânsito, não é preciso ter feito curso na Sorbonne pra saber disso, dãããã..! Mas, mesmo assim, gostaria que constasse nos autos: não fui quem os atropelou! Esses episódios levaram a uma série de ações desastradas que, por sua vez, resultaram em uma guerra campal: antes, era um mata-mata organizado: motoristas de carros contra motociclistas (e todos contra os motoboys). Hoje, por obra de medidas e campanhas de “Primeiro Mundo” (excelentes em teoria, mas aplicadas de forma estabanada), o que era “MMA” virou “Rollerball”. Na disputa se engalfinham motoristas de carro, motoboys, motociclistas, pedestres e ciclistas. Tenho medo de que até os pipoqueiros entrem na peleja. De certa forma, os carroceiros já entraram...

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Nossos líderes tiveram boa intenção quando criaram aquela campanha “Respeite a Faixa de Pedestres”. Mas esqueceram de avisar aos pedestres que eles também deveriam respeitar a faixa (sem mencionar o bom e velho semáforo!) – ou, antes, avisaram, mas no “timing” errado, muito depois de a campanha para os condutores de veículos ter sido implementada. O estrago estava feito e, agora, tudo pode acontecer! Em plena Avenida Consolação, pessoas atravessam a rua onde e quando bem entendem. Se bobear, fazendo o passo “Moonwalking”, do Michael Jackson. Afrontam os carros e motos, olham feio para a gente – e despertam a fúria dos condutores e pilotos mais exaltados, que partem para o contra-ataque no maior revanchismo. Tsc, tsc.

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Semana passada, em plena Avenida Pacaembu, vi um ciclista disputar espaço com os carros, talvez pensando que era um X-Men ou um daqueles heróis japoneses. Os carros e motos seguiam a uma velocidade que nenhum ciclista poderia desenvolver, mas nosso herói não se emendava: lá ia ele, em velocidade de cruzeiro: “a segunda pista é nossa, u-hu, ninguém tasca, eu vi primeiro!” Então, me lembrei da faixa de conscientização (estamos ficando “experts” em faixas de conscientização, primo; conscientização é com a gente mesmo!) estendida em outra avenida da zona norte da cidade, a Cruzeiro do Sul, com os seguintes dizeres: “Motorista, dê prioridade ao ciclista!” Olha, não sou de perder a fé... Mas já ouvi uns e outros por aí ironizar: “Se eles descobrirem que bandido dá voto, as próximas faixas que veremos sobre as avenidas e ruas terão os seguintes dizeres: ‘Motorista, dê prioridade ao assaltante!’”

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Não será responsabilidade demais sobre nossos ombros? Afinal, somos apenas os atores do filme! Esperamos que um diretor nos posicione no set de filmagem e que delimite as respectivas áreas de cada um no drama encenado. Claro que priorizarei o pedestre e o ciclista, primo! Que tipo de monstro eles pensam que eu sou?! Mas ainda acho que a tarefa de estabelecer limites e garantir que estes sejam cumpridos deveria ser delegada a quem de direito. É para isso que os pagamos, não é, primo? Não para pendurar faixas! Mas deixa estar: até a Copa do Mundo, São Paulo será a nova Manhattan que, por enquanto, só existe na cabeça dos nossos eleitos. Do Bronx, chegaremos ao Queens – e aí, “moleque”, ninguém nos segura!

Trust in we! (É nóis!)

Seu estimado primo,
Eduardo Torelli

 
(P.S.1) Para uma lúcida e fundamentada discussão sobre tópicos que, nesta crônica, foram abordados de modo meramente satírico, leia o artigo do meu amigo Nenad Djordjevic na seção “Performance” da “Moto Adventure” deste mês (“Mudanças no Horizonte?”). Parafraseando o Emerson Fittipaldi: “eu recomendo, nêgo!”


TV - Rede Globo / "O Livro do Boni"



DECADENCE SANS ELEGANCE




Deu na coluna de Cristina Padiglione no “Estadão” esta semana: a Rede Globo de Televisão registra, atualmente, o pior Ibope nacional de sua história. É um handicap bem diferente da Globo dos tempos áureos – aquela que o Clodovil costumava chamar de “Vênus Platinada” e que era regida com mão-de-ferro por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

Trabalhei na TV Globo em 1990/1991. Fui estagiário do Departamento de Promoções, subordinado ao grande (em todos os sentidos, pois tinha uma pança estratosférica!) Jorge Moreno, então, Gerente de Produção da emissora em São Paulo. Tenho saudade do tempo que passei naquele predinho no centro, bem ao lado do Minhocão, onde virava as tardes assistindo a filmes e séries e criando chamadas promocionais para essas atrações.

* * *

A Globo da época ainda era o “Monstro Sist” citado por Raul Seixas em seus discursos e músicas. Uma emissora incrivelmente influente que manipulava eleições, proibindo a inserção de bandeiras vermelhas ou de personas non-gratas em seus telejornais e chamadas. Dois anos antes de assinar minha carteira, a Globo mexera os pauzinhos para eleger o Collor, de longe, o mais ridículo dos presidentes brasileiros (isso é, descontando-se o Milton Gonçalves naquele filme Segurança Nacional).

No papel de “Monstro Sist”, a Globo era adepta daquelas baboseiras autoritárias que fazem a alegria dos tiranos: qualquer deslize era motivo para demissão sumária. Errar até podia ser humano, mas não era condizente com o “Padrão Globo de Qualidade”.

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Eu que o diga.

Um dia (ih, que burro, dá nota zero pra mim!), quebrei uma “Cópia A” do filme “Tubarão 2” na moviola da Promoções enquanto selecionava imagens para uma chamada do referido longa-metragem. Passei duas horas escondido em um banheiro do andar térreo, abraçado a um rolo de celulóide, esperando por uma oportunidade de entrar no almoxarifado de películas ao lado da recepção, onde, finalmente (cinco quilos mais magro, por conta da sudorese), pude emendar os fotogramas danificados usando uma seladora especial. Se tivesse sido pego, eu teria sido demitido. Simples assim, "chefia".

Duvido que esse tipo de terrorismo corporativo ainda tenha lugar no mundo. É algo a ser exposto e admirado em um museu, tanto quanto os índices de audiência absolutos que a Globo obtinha naquela época. São histórias que nunca mais se repetirão.

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Havia, porém, uma coisa admirável na Globo daquele tempo – desde que você abstraia das questões ideológicas e se fixe, apenas, em sua capacidade de proporcionar diversão: o “Padrão Globo de Qualidade” funcionava mesmo. E, cá pra nós, acho que aquele clima militar tinha tudo a ver com a eficácia do sistema. Basta rever uma das boas novelas da época (como “Roque Santeiro” e “Vale Tudo”) para constatar que, em suas cenas, não havia uma folha fora de lugar, uma interpretação recalcitrante, uma concessão à auto-indulgência com a qual a “Vênus Platinada” se policia atualmente.

E, sem dúvida, ele – o temido Boni, inventor do “padrão” – era o homem certo para liderar o exército naquele tempo. Não só por suas atitudes enérgicas, que fizeram escola e transformaram uma emissora de televisão em uma versão moderna do Senado Romano (antes de se demitir ou ser “fritado”, acho que era direito do funcionário beber cicuta...): mas por ter sonhado (e sabido implementar) uma TV que podia ser de qualquer país, que “não tinha sotaque” (palavras textuais) e que, sim, conquistou uma parte significativa do mundo com sua teledramaturgia “tipo exportação”.

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Antes do Boni, a Globo era uma emissorazinha regional que pensava pequeno e agia como tal (basicamente o que é hoje, apesar do pedigree e do alcance nacional). Depois do Boni, tornou-se uma rede – uma potência em seu segmento, tanto quanto a CBS e a NBC nos EUA. E creio que, sob o comando do “gordinho”, teria resistido melhor aos sucessivos nocautes que foram desconstruindo sua invencibilidade, ano a ano (não por coincidência, depois de Boni abdicar do cargo): a fúria dos pastores eletrônicos, o advento da Internet e das redes sociais e a decadência pública de seu casting áureo. Alguém ainda aguenta olhar para a cara da Susana Vieira? Alguém ainda se impressiona com as atuações “magistrais” do Stênio Garcia? Bah – vá ver se eu estou na esquina.

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A trajetória da Globo nos anos 60, 70, 80 e 90 é contada em primeiríssima pessoa no legal “O Livro do Boni”(Casa da Palavra, 464 páginas), que estou lendo atualmente e que recomendo a todos por aqui. Olha: não é uma narrativa excepcional, porque o Boni, como contador de histórias, é um ótimo empresário de TV. Mas os relatos são curiosos, tanto quanto a descoberta de que outros ícones locais das telecomunicações foram fundamentais para a consolidação da Globo (sempre por intermédio do Boni, que passou por esses lugares antes de ir tocar a emissora da Família Marinho): as TVs Tupi e Excelsior, a Rádio Bandeirantes e até a Record dos festivais, na era “pré-evangelização”. Pra matar o tempo e relembrar en passant momentos divertidos da telinha, não há pedida melhor.

Em tempo: o tal do “Viva” (na grade da NET, Canal 36) andou reprisando, com sucesso, alguns hits da emissora produzidos nos anos 1980, como as já mencionadas novelas “Roque Santeiro” e “Vale Tudo”. Entretanto, anda forçando a barra ao tentar vender a ideia de que “Top Model” e “Barriga de Aluguel” foram importantes marcos da cultura pop nos anos 90. Rá, rá – que balela! “Barriga de Aluguel” era tão ruim na época como é hoje; e ninguém (nem a mãe do Taumaturgo Ferreira) se lembrava mais de “Top Model” e de seus personagens caricatos.

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Recordar é viver, sim!

E mentir é um hábito muito feio. 

Duas lições que aprendi com minha avó.



quarta-feira, 24 de abril de 2013

Crônica - Golpes & Cambalachos



ANATOMIA DE UM PICARETA




“O mundo é dos espertos”, reza uma máxima muito popular no Brasil. Que, não por acaso, também inventou aquele famigerado bordão: “o importante é levar vantagem em tudo.”


Fato é que alguns exportam Petróleo e outros, armas de grosso calibre. Quanto a nós, bem... Nós exportamos picaretagem.

* * *

De fato, vamos além: quando há uma “baixa” no mercado interno temos o topete de importar picaretagem de fora. É extensa a lista de celebridades falidas, estelionatários foragidos e terroristas internacionais procurados que já vieram tomar água de coco em nossas praias. Mudam os governos e as eras, mudam os cortes de cabelo e os modismos, mas uma coisa não muda, meu chapa: picaretagem é com a gente mesmo.

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Logo algum brasileiro terá o insight de publicar o “manual do picareta”.

Tipo assim, um livro de auto-ajuda às avessas. Ou antes, o livro definitivo de “auto-ajuda”, já que ninguém visa mais o próprio bem-estar do que um autêntico picareta. Eterno otimista, ele não se recrimina por ser menos brilhante ou trabalhador que seu vizinho de porta. Ao contrário: é um pró-ativo e passa a vida empenhado em mudar este score. Um golpinho aqui, um cambalacho acolá e presto! As compensações falam por si.

Seria ideal que o pretendido livro tivesse uma seção descrevendo os muitos tipos de picaretas. Mais ou menos como aqueles testes das revistas femininas, que segregam os homens em cinco ou seis tipos psicológicos distintos, com os quais as leitoras supostamente devem se identificar ou se precaver.

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Mas aí temos um problema: a coisa mais difícil do mundo é identificar um picareta. Lembre-se: a dissimulação é sua arma; quando quer, ele é mais mimético que um camaleão tímido. Os mais observadores conseguem enxergar sua áurea malévola, identificando ali um sujeito (ou “sujeita”, pois não queremos discriminar ninguém) do qual nunca se deveria comprar uma moto, carro ou fígado de segunda-mão. Não obstante, são uma minoria. As massas são enganadas facilmente pelo picareta.

Sim! É um fato da vida que todo picareta, mais dia menos dia, encontra sua plateia. Sempre haverá alguém disposto a comprar seu currículo falso e a coroá-lo com um régio salário (mais comissão) por um pacote fechado de incompetência, canastrice, falta de comprometimento com o negócio e omissão. E, por ser um vírus corporativo, o picareta continuará a ocupar sua mesa mesmo quando a companhia já tiver ido para as cucuias.

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Outra ideia interessante seria um documentário da National Geographic sobre o modus operandi do picareta. Câmeras diminutas espalhadas em um escritório mostrariam o predador sonso em ação – até veríamos, em câmera lenta, suas vítimas estrebucharem. Um show de realidade e tanto, anote aí o que lhe digo...

Em uma reunião entre o picareta e a chefia (ao som daquelas risadas gravadas que ouvimos nas sitcoms do Canal Sony), veríamos nosso “herói” ludibriar a patronagem com frases de efeito mal e porcamente pinçadas da revista “Isto é Negócios”:

_Decididamente espero uma atitude pró-ativa de minha equipe (o picareta fingindo conhecer a fórmula mágica para transformar uma pastelaria de bairro na principal concorrente do McDonald’s).

_Quero provocá-los e estimulá-los – então, lhes farei perguntas óbvias sobre a empresa em que trabalhamos, de modo a conhecer seus pontos de vista sobre o negócio (o picareta lançando mão de uma estratégia básica para coletar informações vitais sobre o emprego para o qual foi designado a peso de ouro; e para o qual, é claro, não tem nenhuma aptidão).

De certa forma, temos que tirar o chapéu para o picareta: ele é, acima de tudo, um sobrevivente!

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A exemplo de outras temidas criaturas do reino animal, o picareta é duro de matar. Sua tenacidade fenomenal só se equipara às das baratas (que, dizem, seriam as únicas testemunhas oculares de um apocalipse atômico). Então, leitor amigo, não há alternativa: acostume-se a ele!

A menos que o referido vilão cometa um deslize grave (o que só acontece com trainees de picareta, nunca com um picareta sênior), o que o fará ser sumariamente demitido, o mais provável é que ele seja seu companheiro de trabalho por muito e muito tempo. Isto, se não se tornar seu chefe... E até ter um tórrido caso de amor com sua esposa!

Contra o picareta, há uma única defesa: as pessoas de “mentes simples”, que não julgam seus semelhantes pelo curriculum vitae ou pelas fotos que postam no Facebook; ou seja, as que reagem instintivamente à estupidez e, portanto, são “detectoras” natas de picaretas. E o que é melhor: por não estarem subordinadas a eles, podem se dar ao luxo de tratá-los como tal.

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Veja o caso daquele notório picareta que, certa feita, se convidou para almoçar com os colegas de trabalho em uma lanchonete da moda (apesar de ser um grande pão duro e gabar-se de nunca gastar mais de R$ 15,00 em uma refeição).

Todos pediram pratos modestos, coerentes com seus salários, mas o picareta, não: optou por um sanduíche de Presunto de Parma no pão Ciabatta. Percebendo o golpe, a turma contra-atacou com agilidade: decidiu que as comandas seriam pagas individualmente, ao invés de se ratear a conta. E de repente, não mais que de repente, o picareta viu-se em um mato sem cachorro.

Ao saber o quanto custava um sanduíche de Presunto de Parma no pão Ciabatta, o protagonista de nossa fábula surtou: mandou chamar a pobre da garçonete e, agitando a comanda diante da moça, perguntou, com um misto de superioridade e indignação:

_ Este presunto por acaso é de ouro, para custar tão caro?

Ao que a garçonete respondeu, muito coquete:

_Não é de ouro, não sinhô. É de Parma...


TV - Monstros Japoneses



BIG IN JAPAN




Almoçava eu no boteco da esquina quando a velha TV Phillips do estabelecimento foi invadida por atléticos heróis usando uniformes justinhos – eu os definiria como um meio-termo entre uma roupa de balé e um traje de mergulho. Rááá! Rúúú! Ióóóóóóó! Pelos gritos e movimentos frenéticos, logo percebi que eram japoneses, embora usassem aqueles elmos futuristas para manter em segredo suas identidades.

Eram os Power Rangers, claro! Não são da minha época (sou mais contemporâneo do Ultraman e do Ultra-Seven), mas quem não conhece os Power Rangers? Eles estão em qualquer saldão de brinquedos no centro da cidade, em promoções inseridas em embalagens de gomas de mascar e – dia sim, dia não – em reprises da TV aberta.

São recicláveis como o lixo moderno e suas roupas têm as mesmas cores dos cestos seletivos contemporâneos: azul (papel/papelão), amarelo (metal), verde (vidro) e marrom (restos orgânicos). Nada mais moderno e paradoxalmente anacrônico, portanto, que um super-herói japonês!

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Desde a minha infância os super-heróis japoneses levam a fama de fodões, mas quer saber? Eles nada seriam sem seus super-inimigos – aquelas aberrações que vinham de nebulosas ou galáxias desconhecidas (ou, quando o orçamento da série não permitia tamanha extravagância, do laboratório de algum cientista maluco a quem negaram um Prêmio Nobel ou verbas para experimentos militares). Com uma e outra variação no currículo, todos os “Doutores Goris” e “Karras” do mundo são assim.

Digo que os heróis nipônicos devem sua glória aos vilões porque, no fim das contas, não lembramos dos nomes de batismo, pratos prediletos ou signos astrológicos dos Ultramen, Ultra-Sevens e Power Rangers da vida. Só sabemos que eles eram os caras de collant, máscaras de Carnaval e abdomes definidos. Em contrapartida, lembramos dos trejeitos e até das frases de efeito dos vilões. “ZEEEERROOOOO!”, gritava o arquiinimigo do Fantomas, célebre cartoon japonês exibido nos anos 70.

“ZEEEERROOOOO!” – também gritávamos nós, sempre que um colega era pego colando e tinha a prova confiscada, sendo sumariamente condenado à recuperação.

TV é cultura, meu irmão!

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O pouco que vi deste episódio dos Power Rangers mostrou-me que os filmes de monstros japoneses continuam fiéis a si mesmos, resistindo heroicamente à onda de efeitos especiais “moderninhos”.

Os produtores de hoje poderiam usar recursos de modelagem 3D triviais para compor criaturas razoavelmente verossímeis. Mas o fato é que os monstros destes filmes ainda são toscos e desengonçados – exatamente como eram em minha infância. É isso aí: o autêntico monstro japonês tem que ter zíper nas costas e movimentos letárgicos, tipo aqueles bonecões de Olinda ou Joões-Bobos que chamam a freguesia nas portas das borracharias. O bicho tem que ser falso – senão não é monstro japonês!

Outra tradição mantida desde aquele tempo é a pronta identificação que o monstro causa na população de Tóquio, tão logo emerge da baía soltando raios psicodélicos pelas ventas e derrubando prédios de papelão.

“É o terrível Godzilla!”, gritam os populares a caminho do metrô, como se tivessem visto o Ozzy Osbourne fazendo compras em Midtown. Ou: “Oh, não! É o poderoso Mothra! Os testes nucleares o acordaram! Corramos para os abrigos subterrâneos!”

Ou seja: a aparição “surpreendente” do monstro nunca é “tão surpreendente assim”. O monstro é um velho conhecido da vizinhança. Cada novo ataque a Tóquio é apenas a mais nova turnê do “astro”. Francamente, não me surpreenderia se, antes de um novo strike contra o Japão, Rodan ou Ghidorah (eis aí outra convenção “imexível” do gênero: os monstros japoneses sempre têm nomes que lembram remédios para o fígado) explicassem pacientemente suas más-intenções por meio de uma coletiva de imprensa.

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Veja, não estou minimizando o rico folclore destas criaturas. Sei que os monstros japoneses – ao menos os originais, que inspiraram os incontáveis Ultramen e Ultra-Sevens que vieram depois – eram metáforas da bomba atômica (usada militarmente contra o Japão no ápice da Segunda Guerra). Tais filmes carregam, portanto, uma simbologia válida e muito interessante.

Mas é divertido rir deles hoje em dia – até porque me tiravam o sono quando eu usava calças curtas.

E depois: considerando a onda de remakes que assola o cinema americano há uma década e trá-lá-lá, é um alívio constatar que, no Japão, certos sustentáculos continuam em seus devidos lugares. Que venham os terremotos, vazamentos nucleares ou o terrível Mothra (pausa dramática... exclamação).

Os japoneses não se rendem fácil!