terça-feira, 7 de maio de 2013

Cinema - "Blade Runner - 30 Anos Como Ícone da Ficção Científica"



BLADE RUNNER: 30 ANOS COMO ÍCONE DA FICÇÃO CIENTÍFICA




Os replicantes e o caçador de andróides, três décadas depois

Apesar do status de “filme cult” e de ter inspirado gerações de cineastas, Blade Runner veio ao mundo em um parto traumático. A estreia aconteceu no dia 25 de junho de 1982 e as complicações começaram muito antes, na época em que o enredo foi concebido: fruto da anticonvencional imaginação de Philip K. Dick (cuja obra também nos deu o bom e mais contemporâneo Minority Report), a trama tinha aquele viés sombrio e distópico que caracteriza os romances do autor (falecido em 1982; antes, portanto, de gozar a fama que Blade Runner lhe traria, se tivesse passado incólume pelo restante daquela década).

A ficção científica de Philip K. Dick não era poética como a de Ray Bradbury, sóbria como a de Isaac Asimov ou fácil de assimilar como a de H. G. Wells. Ao contrário, era esquisitona, delirante e meio paranóica, apesar de genial – e, para complicar as coisas, suas novelas mais famosas (dentre elas, “Do Androids Dream of Electric Sheep?” / “Sonham os Andróides com Ovelhas Elétricas?”, que inspirou Blade Runner) tinham mensagens incompatíveis com o clima otimista do “Verão do Amor”.

O mundo sonhava com uma época de entendimento entre os homens, enquanto Philip K. Dick sonhava com andróides que viviam em uma Terra desmantelada e transformada em depósito de páreas. No futuro idealizado pelo autor, o homem já alcançara as estrelas, mas deixara para trás um mundo em pandarecos, policiado por tipos questionáveis como Rick Deckard, um blade runner – assim eram chamados os funcionários do governo incumbidos de caçar e eliminar humanos artificiais que, de tão perfeitos, podiam se passar por gente de carne e osso.

No fundo, a trama era uma atualização “sessentista” dos conceitos de “Frankenstein”, ilustre romance de Mary Shelley que iniciou uma discussão manjada da ficção científica: será que o homem é moralmente apto a imitar o mecanismo da Criação e assumir o papel de Deus?

HISTÓRIA ESTRANHA
Muita gente não entendeu qual era a de Philip K. Dick ao contar aquela história estranha, mesmo porque, a possibilidade do homem recriar o homem em um tubo de ensaio (ou em uma linha de montagem) era remota naquele tempo – o primeiro bebê de proveta só veio ao mundo em 1978, dez anos após a publicação de “Do Androids Dream of Electric Sheep?”

Mesmo assim, o cineasta Ridley Scott (que tinha no currículo outra ficção científica de vulto, Alien – O Oitavo Passageiro) viu qualidades no enredo e pensou que não seria um problema transportá-lo para o cinema. Quem poderia contestar essa afirmação, considerando que o gênero estava em alta no fim dos anos 1970 (aquecido pela popularidade de Star Wars e do Superman de Richard Donner)?

A primeira versão do roteiro de Blade Runner foi assinada por Hampton Fancher, que definiu a “espinha dorsal” da obra que hoje conhecemos: já naquele tratamento, o blade runner (vivido por Harrison Ford) perseguia humanos “genéricos” que, tomando consciência da própria mortalidade, demandavam mais tempo de vida de seus criadores.

Fancher também sublinhou o envolvimento sentimental entre o herói e a mocinha Rachel (Sean Young) – por sua vez, uma mulher artificial (feita do mesmo material de que eram feitas as vítimas de Deckard). Mas foi David Webb Peoples (autor dos roteiros de Os Doze Macacos e Os Imperdoáveis) que fez o “ajuste fino” na imagem, trabalhando a partir das ideias de Fancher. Peoples cunhou o termo “replicante” (uma inovação em relação aos “geriátricos” robô, autômato ou andróide).

As versões preliminares do roteiro já sugeriam o uso de uma narração em “off” para a história, homenageando o estilo dos antigos filmes noir (tão característicos da década de 1940). No entanto, a proposta era que este recurso fosse utilizado muito sutilmente, quase como uma “música de fundo” para a narrativa.


CONFLITOS NO SET
Ridley Scott, um criador meticuloso desde aquele tempo, fez de tudo para contagiar a equipe técnica e o elenco com seu entusiasmo. O que ele queria era entregar ao público um filme que não fosse apenas “especial”, mas auto-suficiente em relação à novela que o inspirara.

Na versão fílmica de “Blade Runner”, portanto, desaparecem as referências explícitas que a novela fazia a uma guerra atômica (um dos eventos que teriam conduzido a Terra ao futuro sombrio imaginado por Philip K. Dick). O diretor apelou para um recurso mais charmoso (e decididamente mais “cinematográfico”) para sugerir o apocalipse: uma chuva ácida cai intermitentemente sobre a Los Angeles do futuro (que substitui a São Francisco do romance), assinalando que, em algum ponto da história, a vida no planeta se tornou insustentável. Se por obra de uma guerra nuclear ou de uma hecatombe ambiental, cabia ao público decidir.

Scott também palpitou na direção de arte, encomendada ao “craque” Syd Mead. O cineasta não queria nada na linha “tecnológica” de Fuga do Século XXIII e O Abismo Negro. A metrópole decadente (e visualmente esquizofrênica) por onde perambulam o herói Deckard e os ameaçadores replicantes liderados por Roy (Rutger Hauer) mescla referências de muitas culturas e épocas – há telões supermodernos no alto dos edifícios, mas a arquitetura é velha e decadente. Mead criou este conceito (mais tarde, tão imitado) inspirando-se em Hong Kong, uma metrópole com rasgos de modernidade e de vanguardismo, mas com raízes medievais. Nos arranha-céus que a câmera percorre no início do filme, também se nota a influência do clássico Metrópolis, cujos sets ainda são triunfos de design.

Infelizmente, a presença de Scott no set não foi apenas “inspiradora”. Controlador ao extremo (e muito temperamental), o diretor brigou com quase todo mundo durante a realização do filme. Os técnicos não queriam vê-lo nem pintado de ouro e até o astro Harrison Ford lhe virou a cara – no caso, por diferenças criativas quanto ao projeto.

Uma das queixas de Ford era que o cineasta não lhe dedicava a devida atenção, ajudando-o a compor seu personagem. Mas é preciso entender o diretor: sob o peso de uma produção tão complexa (e sob a estreita vigilância dos chefões do estúdio), Scott estava acuado. Apesar do êxito de Alien – O Oitavo Passageiro, ele ainda era um “novato” e não tinha a moral de um Stanley Kubrick para impor sua visão aos técnicos e atores. Aos trancos e barrancos, a produção foi concluída – felizmente, sem que os atritos nos bastidores afetassem a qualidade artística do projeto (algo que jamais foi questionado, mesmo à luz dos eventos que vieram depois). Montado e sonorizado por uma antológica trilha sonora de Vangelis, Blade Runner estava prestes a vir à luz.

Mas aí, aconteceram as complicações de parto...

MORTE E RESSURREIÇÃO
Blade Runner – o filme seminal que, hoje, dispensa apresentações e que todos querem imitar – foi um retumbante fracasso de crítica e de público em 1982. A coisa foi tão feia que a genialidade do diretor (exaltada não apenas em Alien, mas no excelente Os Duelistas, de 1977, que também ganhara boas críticas) foi colocada em xeque. A ironia é que, talvez, o fracasso tenha se devido justamente ao apuro da produção – impecável não só no âmbito estético, mas na composição caprichada dos personagens e em seu autêntico senso de drama.

Com base nos mais facilmente “digeríveis” Star Wars e Superman, o que era Blade Runner? A pergunta procedia, considerando-se que, até então, ninguém esperava muita sutileza de um filme de ficção científica. Sem alienígenas de aspecto bizarro, duelos de sabres de luz ou mocinhos com superpoderes, Blade Runner era uma ficção científica atípica demais para o período.

Mas, em uma reviravolta que ninguém poderia antecipar em 1982, o mercado de home video resgatou do limbo esta oba-prima – à medida que espectadores de outra geração o descobriam nas videolocadoras, em versão VHS. Aos poucos, uma áurea de interesse foi envolvendo a produção – e, no fim daquela década, ninguém mais questionava o valor do filme. A explicação para o “naufrágio” nas bilheterias era óbvia: exatamente como a história que contava, Blade Runner – o filme – estava muito à frente de seu tempo.

VERSÕES
E ainda há muito a se descobrir no filme. A prova disso não está apenas em sua incrível longevidade (seu look se mantém assombrosamente atual, mesmo nesses tempos de motion capture e matte paintings digitais), mas no fato de as pessoas ainda debaterem pontos-chave da história e da realização (“será que Rick Deckard também era um replicante?”; “O filme fica melhor ou pior sem a narração em ‘off’’?”). Relançada várias vezes (em versões que atestam as diferentes visões do realizador e do estúdio da mesma história), a obra se esquiva de um veredicto definitivo e estimula a discussão, o que indubitavelmente contribui para a magia que permeia a produção.

Lembrando que, há alguns anos, a Warner lançou um DVD contendo os cinco “cortes” de Blade Runner (esta superedição também está disponível no Brasil). É prazeroso ver como a trama assume novos significados a cada remontagem. Seja no modo “estendido” ou com metragem econômica, com ou sem narração em “off”, acrescida ou destituída dos retoques digitais que Scott fez em algumas cenas (servindo-se das modernas ferramentas digitais), O Caçador de Andróides é sempre um grande filme.

Seu maior legado talvez seja nos lembrar de que, sem correr riscos, dificilmente um cineasta conseguirá produzir uma obra que resista à prova do tempo, juntando-se à seleta galeria de produções que, às vezes, justificam a existência de um gênero.

Bravo!

Este artigo foi originalmente veiculado no site "O Capacitor"


Crônica - Internet II



A SENHA




O mundo se expandiu, se integrou, ficou mais inteligente. Obrigado, Internet, por diminuir distâncias imensuráveis. Por me permitir bater papo com amigos da Holanda ou da Inglaterra todos os dias, aproveitando aqueles quinze minutinhos que sobraram do horário de almoço. Ou enquanto espero a janta ficar pronta.

Comprar, então, nunca foi tão fácil! Tenho contas em lojas virtuais que operam em países cujos idiomas eu desconheço. Mas isto é apenas um detalhe. “Are you ready to buy, Eduardo?” “Oh, yeah – let’s do it!”.

* * *

Em contrapartida, tenho que conviver com o inferno das senhas.

Houve tempo em que “senha” era apenas um lance de filme de espionagem. “Tem fósforos?” / “Só uso isqueiro” / “Melhor ainda!” / “Enquanto não falha.” Era assim nos filmes de James Bond. Senha e contrassenha, missão secreta em andamento. No máximo, a gente tinha uma senha pra acessar a conta do banco.

Não que fosse fácil. Às vezes não era.

* * *

Definir senhas com base (por exemplo) nas datas de nascimento dos filhos podia ser um problema se o sujeito tivesse conta em mais de um banco. E, digamos, um menino e uma menina em casa.

Rosana – nascida a 03/05/86 – seria a chave de acesso à MaxiConta Itaú ou à Superpoupança Bamerindus? Não, que idiotice! Rogerinho (05/09/89) é que era o acesso à Superpoupança. Afinal, Rogerinho sempre foi “fortinho” e (lembra?) foi nisso que você pensou quando definiu a senha da Superpoupança.

Eventualmente, descobria-se que tanto a MaxiConta Itaú quanto a Superpoupança Bamerindus tinham, como senha, o nome do cachorro da família, "Mike Tyson", falecido dois anos antes!
 
* * *

Se administrar esses anagramas já era um estresse quinze anos atrás, imagine como ficou a vida depois do e-mail, do Facebook, do Orkut e do Mercado Livre.

Chegou um ponto em que nossos smartphones – e outros gadgets futuristas que carregamos nos bolsos – logo precisarão ter folders para o acondicionamento de senhas. Por enquanto, me viro com uma versão pré-histórica deste sistema: crio pastas virtuais com os nomes de instituições bancárias, sites, lojas e pentelhações sazonais, como a inspeção obrigatória do Controlar, e as deixo bem no meu nariz, flutuando ludicamente na área de trabalho do Windows. Não é uma visão inspiradora, mas funciona.

Mesmo assim, me sinto um mentecapto – tanto por constatar a limitação de espaço livre em meu HD de massa encefálica como por saber que, se me furtarem o computador, deixarei de ser um indivíduo respeitável e me tornarei um párea virtual. Descobrirão o quanto fui burro e farão “memes” com a minha cara. Serei compartilhado no “Facebaaaak” e twittado sem dó. Crianças e pré-adolescentes rirão de mim...

* * *

Pior é quando o inimaginável acontece: quando você esquece sua senha.

É direito inalienável do cidadão ser acometido por “brancos” – aqueles ataques de amnésia que tínhamos na escola, especialmente nas provas de História ou de Química. Mas as grandes corporações e seus braços virtuais ignoram as idiossincrasias humanas. Querem a perfeição, não toleram falhas. Sem digitar a senha, você não passará! (sobe a música dramática).

Há alguns dias – habituado que estou a acessar minha conta de e-mail “no automático” (o endereço fica na memória do Google Chrome; ou do computador; ou sei lá do quê), fiquei paralisado diante da tela ao ser intimado a fornecer minha senha.

Uai – que novidade era aquela?! Aí, percebi tudo: eu tentava acessar minha conta de outro computador, o que faço muito raramente. E, é claro: não tinha a menor ideia de qual era a minha senha.

* * *

“E agora?”, pensei, calculando a distância que separava minha casa do computador do trabalho (onde estão minhas pastinhas virtuais com os nomes dos sites que costumo acessar) – uns quatro bairros e cinco pontes da Marginal do Tietê.

Puxei pela memória, não veio nada. Tamborilei os dedos na mesa do escritório, tentando adivinhar que associação fizera ao definir a senha do serviço em questão. Nomes de filmes? Talvez. Não, não podiam ser nomes de filmes... Nomes de filmes são muito extensos para configurar boas senhas. Iniciais de filmes + datas de produção? Tipo: EVL1939 (“E O vento Levou, 1939”). Não, não... Idiota demais.

Ano em que o Palmeiras ganhou pela primeira vez o Campeonato Brasileiro? Dia, mês e ano do ataque terrorista às Torres Gêmeas? A placa do meu carro? O número do meu celular (dúvida: o número original do celular ou a versão mais recente, acrescida de um “9”?). Gotas de suor começaram a se acumular em minha face. Eu não estava chegando a nada.

* * *

E então – presto!

Um ícone no cantinho da página me perguntava: “Usuário, esqueceu sua senha?” “Sim”, pensei em voz alta, clicando no ícone salvador. Outra mensagem surgiu na tela: “Pronto para responder a pergunta secreta?”.

(...)

Pergunta secreta? Que pergunta secreta?!

QUE RAIO DE PERGUNTA SECRETA É ESSA, PORRA?!

* * *

Bati os olhos em outro ícone: “O usuário gostaria de solicitar uma nova senha?” “Sim, sim”, pensei berrando. “Isto é que é falar!” Cliquei no botão virtual. Outra mensagem surgiu na tela: “Gostaria que uma nova senha fosse enviada a outro e-mail cadastrado?”

Esmurrei a mesa. Uivei.

Outro e-mail cadastrado? Que outro e-mail cadastrado?!

SÓ TENHO UM E-MAIL E ESTÁ AÍ DENTRO DESSA JOÇA, DEIXA EU ENTRAR, DEIXA EU ENTRAR, DEIXA EU ENTRAAAAAR!

* * *

Para encurtar a história: é claro que não pude acessar minha conta. Exceto quando cheguei ao trabalho e abri minhas pastinhas flutuantes. Descobri que a senha do e-mail era um número de telefone antigo da casa de minha mãe. Por que escolhi esse número? E eu que sei, rapaz?

Não, péra...

Acho que esta era resposta para a minha “pergunta secreta”.


Crônica - Parks and Recreations



E FOMOS JUNTOS AO PLAYCENTER...




Ontem, o Playcenter fechou as portas. Para sempre.

Tenho certeza que, intimamente, muito marmanjo da minha idade suspirou com essa notícia. Dá para entender que, no ritmo do progresso – inclusive no que tange o entretenimento –, o bom e velho parque de diversões que decorou a paisagem de “Sampa” durante décadas ficou obsoleto. É hora, portanto, de ser aposentado e substituído.

Mas que adulto nascido ou criado nesta cidade não tem sua própria coleção de memórias afetivas do famoso logradouro onde viviam a Monga, as criaturas do “Castelo Assombrado” e os zumbis das “Noites do Terror” – sem mencionar os infames bichinhos mecânicos do “Show dos Ursos” e da “Montanha Encantada”?

Eu tenho uma porção!

* * *

Na casa de minha mãe, pegando poeira em um armário de cerejeira, há slides tirados por meu falecido pai que mostram o Playcenter em diversas fases. O lugar era sempre um gigantesco e colorido cenário para as minhas peripécias e as do meu irmão, que nem conseguíamos dormir às vésperas de nossas visitas regulares ao parque.

Alguns desses slides são relíquias: neles, vemos o Playcenter em sua fase mais rudimentar. Datados de 1973 ou 74, os cromos mostram a gente em cima de potrinhos de verdade, que marchavam em volta de uma base de fibra de vidro (este foi o primeiro carrossel do parque, muito antes de toda aquela pirotecnia do “Enterprise”, do “Barco Viking” e da “Montanha Encantada” se concretizar).

* * *

Isso também foi antes do “Passaporte da Alegria” – supostamente uma barganha, pela qual o visitante pagava um preço único e podia desfrutar de todas as atrações. Rá, rá – que lorota! Com filas que excediam os 40 minutos de espera, alguns dos brinquedos mais disputados eram virtualmente inacessíveis em dias de “casa cheia”. Você pagava, mas não tinha qualquer garantia de que brincaria no “Samba”, no “Bicho da Seda” ou na “Casa Maluca”.

* * *

O Playcenter tinha um cheiro e uma atmosfera próprios. Era um odor de pipoca, de caramelo, de chocolate (este último, oriundo da barraca do favo holandês) e de asfalto quente, insinuando-se por nossas narinas enquanto percorríamos as quatro alas do parque.

Nessas andanças, aquela grande tenda marrom ao lado da “Montanha Encantada” (se não me falha a memória) era um tipo de “posto avançado”. Ali os garotos brincavam de soldados, atirando descerimoniosamente em cabeças imóveis de palhaços; ou perdiam algum dinheiro alegremente em joguinhos de azar muito mambembes, mas que cumpriam seu papel na mística do lugar.

* * *

Sim, pois nem só de engenharia era feito o Playcenter. A simplicidade de certas coisas – a mediocridade das guloseimas e até as ocasionais falhas técnicas nos brinquedos – eram parte da brincadeira.

O Playcenter era legal assim: meio subdesenvolvido, meio imerso na poluição da Marginal, meio “cheio demais” e, mesmo assim, transcendente. Queríamos metralhar aqueles ônibus de excursões que atracavam no estacionamento logo cedo, triplicando a população do parque. E avacalhávamos a organização do empreendimento, comparando-o à Disney e afins.

Mas, no fundo, já tínhamos saudades do parque tão logo a “Super Jet” (a quem interessar, este era o “nome de batismo” da montanha-russa) se tornava um ponto distante nos retrovisores dos carros de nossos pais.

* * *

A última vez que estive no Playcenter foi com uma garota que amei perdidamente nos tempos de faculdade. A sugestão – original, diga-se de passagem – partiu dela: passaríamos um dia no parque, comemorando meu aniversário de 20 anos.

Tinha tudo para ser uma curtição, mas não foi exatamente uma Brastemp: uma vez lá, ela jogou duro e, naquele dia, não me deu um beijinho sequer – e olha que fiz malabarismos pra conseguir meu prêmio (inclusive suportando heroicamente o horrível “show dos ursos”, que ela queria tanto assistir).

Bem, pouco importa: as lembranças daquele dia também são as últimas que tenho do parque. E, por extensão, de uma infância simples, mas feliz; e do meu pai – que tantas vezes abdicou de suas manhãs de domingo para nos proporcionar algumas horas mágicas no Playcenter.

* * *

Ao longo dos anos, houve incidentes infelizes no parque – inclusive, alguns acidentes fatais. Mas creio que, no balanço geral, o Playcenter velho-de-guerra deixa um saldo positivo.

Igualzinho àquele meu amor de faculdade: o que é a dor de um beijo negado em comparação ao prazer dos que foram concedidos?

Acho que deveríamos ser gratos.

P.S.: Para fechar com chave de ouro: o “King Kong” do filme de 1977, que foi exibido no parque para deleite da criançada da época; a “Casa do Monstro”, cujas aberrações mecânicas tiravam o nosso sono; e a “Montanha Encantada”, que, noves fora, tinha lá seus encantos (isso é, até privarem o brinquedo daquela descida vertiginosa que encerrava o passeio, deixando todo mundo ensopado; bons tempos, “seu” menino; bons tempos).









Crônica - Cães II



SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO




Yan, meu lhasa-apso de estimação, foi para o Céu dos cachorrinhos há coisa de três semanas. Foi um nocaute. Passei dois dias chorando como uma garotinha, mas agora estou melhor. Mentira, não estou não. Ainda choro como uma garotinha – mas, de uns dias para cá, só no carro, à noite, quando volto do trabalho para casa.

É esquisito abrir a porta da sala e não vê-lo ali. Yan era um cachorro de apenas 8 kg, mas parecia ocupar todos os cômodos, cada recôndito da área social, do quintal ou da lavanderia. À noite, quando me levanto para beber água ou ir ao banheiro, ainda olho por onde piso. Em minha mente, ele ainda está por ali, fazendo aquelas incursões noturnas que todo cachorro faz. Mas, claro, é só minha imaginação. Uma “sensação fantasma”.

Dizem que acontece o mesmo com quem perde um braço ou uma perna. Durante semanas, o amputado tem a impressão de que o membro continua ali. Sente coçar um braço que deixou de existir. Tem câimbras em uma perna que lhe foi retirada. Curiosa é a relação do ser humano com a perda.   

* * *

Sempre simpatizei com cães, mas nunca tivera um deles. Ingenuamente, achava que perder um comparsa peludo fosse uma experiência triste, mas que não se equiparasse à perda de um membro da família. Eu estava errado: o vazio, o buraco que fica na alma da gente, é o mesmo. Se há algum atenuante é a noção de que, quando vêm ao mundo, cães estão largados à sua própria sorte. São bichos domesticados, não sabem se virar sozinhos. Foram excessivamente “humanizados” e não dispõem de meios para sobreviver no mundo dos homens, esta espécie hedionda e moralmente antropofágica que violenta os próprios filhos (e os filhos dos outros) e não se sensibiliza mais com os infortúnios impostos à sua própria raça, que se dirá a animais quadrúpedes.

Aí, tenho um consolo: Yan deu uma sorte danada. Foi adotado por uma família que o amou incondicionalmente. Jamais teve um dia miserável. Jamais sequer sangrou. Na velhice, diabético, teve quem cuidasse dele, quem lhe aplicasse injeções de insulina, quem o alimentasse na hora certa – minha mãe, que o tratou e acalentou como um bebê humano desde os primeiros dias de vida. Eu mesmo não sei se contarei com essas regalias quando estiver velhinho. Mais: suspeito que morrerei de câncer ou de forma igualmente desagradável. Yan morreu de um ataque do coração. Não sentiu nada – se a gente soubesse, de antemão, que o fim seria assim, jamais teria qualquer motivo para temer a vida.

Dos males, o menor. Meu único trabalho, agora, é administrar a perda. Estou pagando o ônus por 12 anos de muita felicidade. É justo.

* * *

Depois de um primeiro e pavoroso fim de semana sem o Yan, sobreveio o feriado de Páscoa e achei – não sei por que – que seria uma boa ideia dar uma passada na casa da minha mãe e levá-la à tradicional missa celebrada no bairro de Santana por ocasião das sextas-feiras santas. Que egoísta eu sou: a última vez que havia pisado em uma igreja fora há dez anos, na missa de sétimo dia do meu pai. Assumo ser um desses covardes que só buscam o consolo espiritual nas horas difíceis. Bom, pelo menos, sou sincero.

A Matriz de Santana está igualzinha ao que era em minha infância – passo na frente do templo quase toda semana, mas de carro, sempre às pressas. No fundão da igreja, de pé, assisti a um quarto da missa. Foi o máximo que aguentei, mas apreciei a sensação de quietude proporcionada pelo prédio.

É quase como se um campo de força acústico-espiritual isolasse a edificação dos sons mundanos da rua. Ouvi, pela enésima vez, o relato da prisão de Jesus, os argumentos de acusação contra Sua pessoa, e, por fim, os sórdidos detalhes de Sua execução. Dessa vez, a mise-en-scène se resumia a um locutor lendo, emocionado, aquele libreto de missa – nada muito espetacular. Mas, em outros tempos, nessa mesma igreja, os párocos recorriam até a montagens teatrais para recriar, diante do público, os lances mais impactantes da Paixão.

Em 1979, o teatro foi tão bom, mas tão bom, que houve reprise do espetáculo na missa de sábado. Lembro de chegar esbaforido à frente da igreja e perguntar ao sacristão: “Já julgaram Jesus? Não? Dá licença, deixa eu entrar.”

* * *

No espírito em que eu me encontrava, talvez tivesse assistido à missa na íntegra na última sexta-feira santa. Mas o sermão me demoveu dessa ideia. Hoje sei qual é o problema desses rituais litúrgicos quando você é (ou tenta ser) um livre pensador: ministrado no meio da missa, o sermão é um tremendo anticlímax. É como se você estivesse vendo um filme e, no meio da projeção, as luzes se acendessem e um crítico aparecesse ali na frente, fazendo suas considerações sobre o longa-metragem que, até então, você acompanhava com interesse. Melhor seria se o sermão ficasse para o fim, cabendo a cada um a decisão de ouvir ou não as considerações do padre. Crítica no meio do espetáculo não tem condições!

Fui fumar um cigarro lá fora e, como se contratados por um astuto diretor de elenco, personagens da minha infância começaram a se materializar à minha frente – primeiro, o Gelol, amigo do meu irmão na Comunidade de Jovens e que eu não via desde 1985 (ou 86). Conversamos, rimos, atualizamos um hiato de duas décadas. De repente, não mais que de repente, também surgiram meu primo Ronaldo e – pasme! – minha professora de catecismo. E muitas outras pessoas das quais eu não me lembrava mais. O assunto do cachorrinho veio à tona e aquela boa gente – aqueles fantasmas redivivos – me consolou, me abraçou, me deu tapinhas nas costas e até me fez rir. Quem diria? Estávamos conectados de novo, após anos de separação. E, no minuto seguinte, cada um seguia seu rumo, de volta à sua própria vida.

* * *

O que a última sexta-feira da paixão me ensinou foi que, quando nos lembramos de nosso passado, nos tornamos mais resistentes aos nocautes do presente. Situações assim – reencontros fortuitos e marcantes, como estes – nos fazem ver que, antes do “hoje sombrio”, houve incontáveis “ontens felizes”. E que morremos e renascemos um sem-número de vezes nessa vida, embora tendamos a nos esquecer disso e a supervalorizar a dor mais recente. Isso, é claro, não exclui o sofrimento, o vazio deixado por uma perda. Mas nos lembra de que viver é testemunhar uma sucessão de anoiteceres e amanheceres. E de que, entre estes – acredite, sei o que estou dizendo –, é possível (bem possível) a gente ser feliz.

Tchau, Yan. Obrigado por tudo. Com seus 8 kg de alegria e amor, você fez uma enorme diferença.

De modo algum foi tempo perdido.


Crônica - Fantasmas



HISTÓRIAS DE FANTASMAS




Pouco antes das onze, o papo no boteco enveredou pelas brumas do fantástico, do inexplicável, do sobrenatural. Bom, mais ou menos: o clima era descontraído demais, ao menos em comparação ao de uma sessão espírita ou, sei lá, do exorcismo da Emily Rose. “Não acredito em fantasmas, em anjos ou em Deus”, bradou meu amigo, olhos injetados de birita e com uma determinação vitorbelfortiana de nocautear qualquer Gasparzinho ou espectro não-camarada que por ali passasse.

Comedido, desviei-me estrategicamente do tópico “Deus”. Também me abstive de discutir o sexo dos anjos, mas tive que dar razão a ele no que se refere aos fantasmas. É fato: embora funcionem bem no cinema, assombrações só podem ser contos da carochinha.

* * *

Acompanhe meu raciocínio.

O sujeito é advogado, físico nuclear, neurocirurgião ou conferencista. Já defendeu teses importantes, palestrou em universidades e cativou centenas de pessoas com sua lucidez e eloquência (sem mencionar seu senso de humor oportuno e inteligente).

Entretanto, ao morrer, a primeira coisa que faz é se cobrir com um lençol, esconder-se no sótão e gritar “Buuu!” para o primeiro infeliz a lhe passar pela frente.

Não, não!

Isso não faz sentido...


* * *

O leitor pode contra-argumentar, me garantir que “as coisas não são bem assim”. Afinal, Hollywood nos mostrou fantasmas BEM assustadores. Tipo aqueles do “Iluminado”, do “Sexto Sentido” ou do “Chamado”.

Lençóis – consideremos a alternativa – poderiam ser os “modelitos” usados por defuntos pouco imaginativos. Digamos, a “gente diferenciada” do limbo, a classe C do plano astral. Pense naquela cantora Joelma.

Um fantasma de respeito recorreria a truques melhores para arrepiar os cabelos dos vivos. Talvez a Wetta Digital (ou aquele maquiador artístico famoso, Rick Baker) tenha uma filial no além, atendendo aos defuntos abastados que podem pagar por “scary looks” mais legais – machados enterrados na testa, faces parcialmente destruídas e com os ossos se projetando da pele, enfim...

É como o Carnaval: quem pode torrar R$ 1.500,00 em uma boa fantasia aparece na Globo. Quem não pode se contenta em curtir a folia usando chinelo de dedo e sacolinha do Carrefour na cabeça.

* * *

Se o além for mesmo como nos filmes, acho que estão faltando, por lá, alguns programas de motivação. Workshops que auxiliem a alma penada a dar um passo além, a progredir no plano não-corpóreo.

Que tremendo desperdício de energia passar a eternidade assustando os vivos! Afinal: os vivos já têm muito com que se assustar. As prestações do financiamento, faturas do cartão com mais de quatro dígitos, inspeção veicular, renovação do seguro do carro, a sucessão da Dilma, a décima terceira edição do Big Brother...

É infindável e eclético o purgatório que nos rodeia. Neste cenário, quem tem medo de um espectro macilento a nos observar malevolamente do canto da sala?

De fato, em certos noites – em momentos críticos do mês –, periga eu convidar o fantasma pra tomar umas e outras por minha conta. Contanto que ele me ouça e não me julgue.

Entende..?

* * *

Fato é: os fantasmas estão perdendo grandes oportunidades, considerando o que podem fazer quando abandonam os limites da carne, quando se divorciam das leis do tempo e do espaço.

Por exemplo: o que um fantasma “macho” ganharia assombrando o meu apartamento, quando poderia espiar a Ana Hickmann pelada no chuveiro sem ser processado por assédio? Sem considerar o cenário: há terreiros mais interessantes para “baixar” que o meu humilde cafofo.

Certos, mesmo, estão os fantasmas da Inglaterra ou da Irlanda, que levam um vidão digno da Revista “Caras”. Ok, não há castelos para assombrar no Brasil – entretanto, na qualidade de fantasma, eu já me contentaria em assombrar uma suíte do Maksoud Plaza ou um daqueles hotéis chiquérrimos da Amazônia.

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Quando estiver “do outro lado” (se é que existe um “outro lado”), também questionarei os métodos de comunicação empregados pelas almas penadas para se comunicar conosco. Sou jornalista. Interessam-me essas coisas. Tenho autoridade para garantir que, embora fosse um bom truque em 1820, recorrer a uma tábua Ouija ou a um copo para formar sentenças muito longas é dos métodos mais ineficazes para se fazer entender.

Ainda mais hoje em dia, quando estamos na era do “Facebaak” e do Twitter. Até as TVs, agora, se conectam à Internet. Soletrar sentenças muito extensas (por exemplo, “todos nesta sala morrerão, a começar dos que não acreditam!”) é contraproducente e desgastante. E, do ponto de vista da plateia, uma experiência enfadonha.

Assombre-me, me assuste...

Mas não me faça perder tempo.

E “Buuu” pra você também!




Crônica - São Paulo II



"I LOVE NU IORKI!"




Caro primo Anthony, how do you do?

Sei que o meu Inglês é sofrível e que eu nem deveria exercitá-lo nesta cartinha, cujo objetivo é apenas lhe perguntar como vão as coisas aí na América e, na via contrária, contar-lhe como vão as coisas aqui em “Sampa”, apelido carinhoso dado à maior cidade do país. Rapaz, escreva o que digo: vamos de vento em popa! Parece que a determinação dos nossos governantes é transformar São Paulo, que um dia se contentou em ser a terra da garoa, na “Nova York brasileira”. Temos muito chão pela frente, mas posso afirmar com segurança: pelo menos ao Bronx nós já chegamos!

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O primo sabe que sou um cidadão cumpridor das leis. Não me meto em encrenca, tenho a cabeça no lugar. Daí porque tenho penado ao fazer minha parte na hercúlea tarefa de construir a Manhattan tupiniquim com que sonham os nossos líderes! Veja: eu dirijo veículo automotivo. Não é nenhum Jaguar ou BMW. De fato, não é grande porcaria, embora seja limpinho e me leve aonde eu quero. Em compensação, por ser um modelo popular, não dou trabalho! Sou peixe pequeno. E não é que, mesmo assim, elegeram-me o vilão do filme? A KGB do trânsito “encrespou” com a numeração da minha placa. Não conta pra ninguém, mas ando pensando até em consultar uma numeróloga em busca de uma combinação de caracteres com melhor astral. Porque não é possível, a atual está zicada!

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É com o meu “possante” que eles estão preocupados. Sou eu o elemento-chave nas aferições do sucesso ou fracasso da inspeção veicular obrigatória. O engraçado é que o cara à minha esquerda (aquele pilotando uma Kombi cujo motor “fuma” mais que o Kate Richards e o Humphrey Bogart juntos) e o cara à minha direita (o caminhoneiro mal-encarado que parece o Toecutter do “Mad Max”) não estão nem aí pra light. Expelem mais porcariada no ar do que aquela usina japonesa que deu “tilt” no ano passado, mas seguem impávidos por aí.

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Também puseram minha cabeça a prêmio porque uns imbecis daqui andaram atropelando pedestres e ciclistas, o que é mesmo um horror. Eu apoio a causa – pedestres e ciclistas devem ter prioridade em eventuais situações de confronto no trânsito, não é preciso ter feito curso na Sorbonne pra saber disso, dãããã..! Mas, mesmo assim, gostaria que constasse nos autos: não fui quem os atropelou! Esses episódios levaram a uma série de ações desastradas que, por sua vez, resultaram em uma guerra campal: antes, era um mata-mata organizado: motoristas de carros contra motociclistas (e todos contra os motoboys). Hoje, por obra de medidas e campanhas de “Primeiro Mundo” (excelentes em teoria, mas aplicadas de forma estabanada), o que era “MMA” virou “Rollerball”. Na disputa se engalfinham motoristas de carro, motoboys, motociclistas, pedestres e ciclistas. Tenho medo de que até os pipoqueiros entrem na peleja. De certa forma, os carroceiros já entraram...

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Nossos líderes tiveram boa intenção quando criaram aquela campanha “Respeite a Faixa de Pedestres”. Mas esqueceram de avisar aos pedestres que eles também deveriam respeitar a faixa (sem mencionar o bom e velho semáforo!) – ou, antes, avisaram, mas no “timing” errado, muito depois de a campanha para os condutores de veículos ter sido implementada. O estrago estava feito e, agora, tudo pode acontecer! Em plena Avenida Consolação, pessoas atravessam a rua onde e quando bem entendem. Se bobear, fazendo o passo “Moonwalking”, do Michael Jackson. Afrontam os carros e motos, olham feio para a gente – e despertam a fúria dos condutores e pilotos mais exaltados, que partem para o contra-ataque no maior revanchismo. Tsc, tsc.

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Semana passada, em plena Avenida Pacaembu, vi um ciclista disputar espaço com os carros, talvez pensando que era um X-Men ou um daqueles heróis japoneses. Os carros e motos seguiam a uma velocidade que nenhum ciclista poderia desenvolver, mas nosso herói não se emendava: lá ia ele, em velocidade de cruzeiro: “a segunda pista é nossa, u-hu, ninguém tasca, eu vi primeiro!” Então, me lembrei da faixa de conscientização (estamos ficando “experts” em faixas de conscientização, primo; conscientização é com a gente mesmo!) estendida em outra avenida da zona norte da cidade, a Cruzeiro do Sul, com os seguintes dizeres: “Motorista, dê prioridade ao ciclista!” Olha, não sou de perder a fé... Mas já ouvi uns e outros por aí ironizar: “Se eles descobrirem que bandido dá voto, as próximas faixas que veremos sobre as avenidas e ruas terão os seguintes dizeres: ‘Motorista, dê prioridade ao assaltante!’”

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Não será responsabilidade demais sobre nossos ombros? Afinal, somos apenas os atores do filme! Esperamos que um diretor nos posicione no set de filmagem e que delimite as respectivas áreas de cada um no drama encenado. Claro que priorizarei o pedestre e o ciclista, primo! Que tipo de monstro eles pensam que eu sou?! Mas ainda acho que a tarefa de estabelecer limites e garantir que estes sejam cumpridos deveria ser delegada a quem de direito. É para isso que os pagamos, não é, primo? Não para pendurar faixas! Mas deixa estar: até a Copa do Mundo, São Paulo será a nova Manhattan que, por enquanto, só existe na cabeça dos nossos eleitos. Do Bronx, chegaremos ao Queens – e aí, “moleque”, ninguém nos segura!

Trust in we! (É nóis!)

Seu estimado primo,
Eduardo Torelli

 
(P.S.1) Para uma lúcida e fundamentada discussão sobre tópicos que, nesta crônica, foram abordados de modo meramente satírico, leia o artigo do meu amigo Nenad Djordjevic na seção “Performance” da “Moto Adventure” deste mês (“Mudanças no Horizonte?”). Parafraseando o Emerson Fittipaldi: “eu recomendo, nêgo!”


TV - Rede Globo / "O Livro do Boni"



DECADENCE SANS ELEGANCE




Deu na coluna de Cristina Padiglione no “Estadão” esta semana: a Rede Globo de Televisão registra, atualmente, o pior Ibope nacional de sua história. É um handicap bem diferente da Globo dos tempos áureos – aquela que o Clodovil costumava chamar de “Vênus Platinada” e que era regida com mão-de-ferro por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

Trabalhei na TV Globo em 1990/1991. Fui estagiário do Departamento de Promoções, subordinado ao grande (em todos os sentidos, pois tinha uma pança estratosférica!) Jorge Moreno, então, Gerente de Produção da emissora em São Paulo. Tenho saudade do tempo que passei naquele predinho no centro, bem ao lado do Minhocão, onde virava as tardes assistindo a filmes e séries e criando chamadas promocionais para essas atrações.

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A Globo da época ainda era o “Monstro Sist” citado por Raul Seixas em seus discursos e músicas. Uma emissora incrivelmente influente que manipulava eleições, proibindo a inserção de bandeiras vermelhas ou de personas non-gratas em seus telejornais e chamadas. Dois anos antes de assinar minha carteira, a Globo mexera os pauzinhos para eleger o Collor, de longe, o mais ridículo dos presidentes brasileiros (isso é, descontando-se o Milton Gonçalves naquele filme Segurança Nacional).

No papel de “Monstro Sist”, a Globo era adepta daquelas baboseiras autoritárias que fazem a alegria dos tiranos: qualquer deslize era motivo para demissão sumária. Errar até podia ser humano, mas não era condizente com o “Padrão Globo de Qualidade”.

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Eu que o diga.

Um dia (ih, que burro, dá nota zero pra mim!), quebrei uma “Cópia A” do filme “Tubarão 2” na moviola da Promoções enquanto selecionava imagens para uma chamada do referido longa-metragem. Passei duas horas escondido em um banheiro do andar térreo, abraçado a um rolo de celulóide, esperando por uma oportunidade de entrar no almoxarifado de películas ao lado da recepção, onde, finalmente (cinco quilos mais magro, por conta da sudorese), pude emendar os fotogramas danificados usando uma seladora especial. Se tivesse sido pego, eu teria sido demitido. Simples assim, "chefia".

Duvido que esse tipo de terrorismo corporativo ainda tenha lugar no mundo. É algo a ser exposto e admirado em um museu, tanto quanto os índices de audiência absolutos que a Globo obtinha naquela época. São histórias que nunca mais se repetirão.

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Havia, porém, uma coisa admirável na Globo daquele tempo – desde que você abstraia das questões ideológicas e se fixe, apenas, em sua capacidade de proporcionar diversão: o “Padrão Globo de Qualidade” funcionava mesmo. E, cá pra nós, acho que aquele clima militar tinha tudo a ver com a eficácia do sistema. Basta rever uma das boas novelas da época (como “Roque Santeiro” e “Vale Tudo”) para constatar que, em suas cenas, não havia uma folha fora de lugar, uma interpretação recalcitrante, uma concessão à auto-indulgência com a qual a “Vênus Platinada” se policia atualmente.

E, sem dúvida, ele – o temido Boni, inventor do “padrão” – era o homem certo para liderar o exército naquele tempo. Não só por suas atitudes enérgicas, que fizeram escola e transformaram uma emissora de televisão em uma versão moderna do Senado Romano (antes de se demitir ou ser “fritado”, acho que era direito do funcionário beber cicuta...): mas por ter sonhado (e sabido implementar) uma TV que podia ser de qualquer país, que “não tinha sotaque” (palavras textuais) e que, sim, conquistou uma parte significativa do mundo com sua teledramaturgia “tipo exportação”.

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Antes do Boni, a Globo era uma emissorazinha regional que pensava pequeno e agia como tal (basicamente o que é hoje, apesar do pedigree e do alcance nacional). Depois do Boni, tornou-se uma rede – uma potência em seu segmento, tanto quanto a CBS e a NBC nos EUA. E creio que, sob o comando do “gordinho”, teria resistido melhor aos sucessivos nocautes que foram desconstruindo sua invencibilidade, ano a ano (não por coincidência, depois de Boni abdicar do cargo): a fúria dos pastores eletrônicos, o advento da Internet e das redes sociais e a decadência pública de seu casting áureo. Alguém ainda aguenta olhar para a cara da Susana Vieira? Alguém ainda se impressiona com as atuações “magistrais” do Stênio Garcia? Bah – vá ver se eu estou na esquina.

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A trajetória da Globo nos anos 60, 70, 80 e 90 é contada em primeiríssima pessoa no legal “O Livro do Boni”(Casa da Palavra, 464 páginas), que estou lendo atualmente e que recomendo a todos por aqui. Olha: não é uma narrativa excepcional, porque o Boni, como contador de histórias, é um ótimo empresário de TV. Mas os relatos são curiosos, tanto quanto a descoberta de que outros ícones locais das telecomunicações foram fundamentais para a consolidação da Globo (sempre por intermédio do Boni, que passou por esses lugares antes de ir tocar a emissora da Família Marinho): as TVs Tupi e Excelsior, a Rádio Bandeirantes e até a Record dos festivais, na era “pré-evangelização”. Pra matar o tempo e relembrar en passant momentos divertidos da telinha, não há pedida melhor.

Em tempo: o tal do “Viva” (na grade da NET, Canal 36) andou reprisando, com sucesso, alguns hits da emissora produzidos nos anos 1980, como as já mencionadas novelas “Roque Santeiro” e “Vale Tudo”. Entretanto, anda forçando a barra ao tentar vender a ideia de que “Top Model” e “Barriga de Aluguel” foram importantes marcos da cultura pop nos anos 90. Rá, rá – que balela! “Barriga de Aluguel” era tão ruim na época como é hoje; e ninguém (nem a mãe do Taumaturgo Ferreira) se lembrava mais de “Top Model” e de seus personagens caricatos.

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Recordar é viver, sim!

E mentir é um hábito muito feio. 

Duas lições que aprendi com minha avó.