quinta-feira, 9 de maio de 2013

Crônica - Comportamento / Barracos Urbanos



A INVASÃO




Cidadão!

Este é um pronunciamento público e diz respeito a você e a seus familiares.

Não troque de canal, não mude de estação, não desligue o telefone.

Esta frequência é segura, mas estamos sob ocupação já há uma década e, a essas alturas, o inimigo penetrou em nossas trincheiras, se instalou no governo e monopolizou as comunicações.

Agora mesmo, existe o risco desta mensagem ser interceptada...

... ser interceptada...

... ser interceptada...

Aaaaaaaaah... Lelek lek lek lek lek lek lek lek lek lek!

“Esse é o novo passinho / pra geral se amarrar /
Ele é muito maneiro / qualquer um pode mandar!”


* * *

Esqueça os zumbis e os vampiros, meu filho.

O apocalipse bateu à nossa porta, sim, mas não foi do jeito que Hollywood previu. O ano 2000 passou batido por nós e saímos comemorando cedo a catástrofe que nunca aconteceu.

Olha aí: assinamos atestado de otários.

Ligue o rádio, agora mesmo. Veja os modos do seu vizinho. Olha o que está passando na TV. Converse com um professor da rede pública sobre o universo e as perspectivas de seus alunos, peça licença e vá se sentar na calçada. Chore.

Foram os boçais, meu chapa.

Os boçais é que dominaram o mundo.

* * *

Outro dia, eu e a rapaziada da redação fizemos um happy hour no Bar da Imprensa, botequinho familiar e bem ajeitado das redondezas. Sem aviso prévio, o invasor chegou: eram vários. Tomaram conta de uma mesa ao lado, sacaram seus celulares (“Fazer ‘fotinha’! Fazer ‘fotinha’!”), largaram as blusas e as bolsas no chão e o Armaggedon ficou solto.

Ou já estavam bêbados ou tomaram umas e outras via “intravenosa”. Porque, em poucos instantes, todo mundo já estava pra lá de Bagdá. No modo “dançar-sensualizar-destruir”, a mulherada do grupo (nada que se salvasse ali, garanto) começou a se expandir pelo recinto feito massa de pão, usando o seu espaço e os dos outros. Dançaram na calçada – chique! – e o inevitável aconteceu: uma delas, que deveria pesar uns 150 quilos (sem meias e sapatos e em jejum), deu uma bundada nas garrafas e petiscos da mesa, espalhando tudo pelo chão.

“Mano! Põe mais cervêêêêja!”

“Mano! Tira ‘fotinha’!”

“Mano! Que vontade de mijar da porra!”

(Esta era uma das moças).

* * *

A galera do boteco aumentou o tom de voz, pois era impossível qualquer entendimento em meio àquela algazarra. O desconforto piorou quando um dos farofeiros manobrou o carro para a calçada próxima ao bar e PÁ! Ligou a porra do som nas alturas.

A vontade era sair esmurrando, mas um gigante do nosso grupo (meu colega Vitor Giglio, que já jogou rugby e que poderia quebrar suas costelas com um peteleco) manteve a cabeça fria e, com um autocontrole invejável, foi lá parlamentar com eles. A contragosto, os joselitos-sem-noção baixaram a música – pero no mucho. Só reinou a paz, mesmo, quando um garçom veio pedir que o som fosse totalmente desligado, pois os clientes que estavam dentro do restaurante não conseguiam ouvir o show do artista contratado pela casa.

* * *

E é isso.

O cara paga pra tomar um choppinho e ouvir um pouco de MPB e leva um repertório de Funk e de Forró nos ouvidos. Cortesia do babaca-mor da vizinhança, que comprou um kit de som a 400 prestações e (“Câmera em mim! ‘Fotinha’!”) acha que está abafando.

Idiota.

* * *

Que será que aconteceu?

Ainda boto fé no Homem, então, vamos considerar que o joselito-sem-noção (cada vez mais, o protótipo do brasileiro) não tem consciência do que faz... É tudo parte daquela conspiração mencionada lá em cima. Quem sabe, os paraguaios não lançaram algum bacilo ou vírus contagioso e idiotizante em nossa água, transformando o Brasil em uma nação de retardados? Olha, é algo pra gente considerar... Já vi um troço parecido em um filme do George Romero!

Por via das dúvidas, daqui pra frente, vamos observar atentamente os nossos próprios modos em público. Nunca se sabe: nós mesmos podemos já ter bebido a água. Talvez a nossa porção “joselito” esteja incubada e prestes a irromper no mundo. Já pensou?


* * *

Tem que ver isso aí, ó:

SOM: Ninguém precisa escutar o que você gosta de ouvir. Foi pensando nisso que, em 1958, os norte-americanos (ô, raça boa!) inventaram uma coisa chamada “fone de ouvido”, testada e aprovada em países desenvolvidos, mas que já está à venda em qualquer boa loja do ramo do Brasil há um tempão. Experimente: é joia.

FILAS: Tanto quanto a penicilina, elas são um sustentáculo da civilização. Não fure filas. Espere. Pode parecer uma besteira agora, porque você está estressado e não consegue pensar com clareza, mas uma coisa bacana sobre as filas (talvez, a única) é que elas andam. Um passo de cada vez... Devagar... Mas andam.

NEXTEL, SMARTHPHONE E CELULAR: A gente sabe que você está superorgulhoso de si pelo negócio que fechou ontem. A gente também sabe que você ama a Dani, e tudo, mas a real é que ninguém na praça de alimentação, elevador ou banheiro do shopping liga a mínima pra isso. Se o telefone tocar quando você estiver cercado por desconhecidos, baixe a voz para um sussurro e diga: “Dani, gata... Não posso atender agora. Te ligo em dois minutinhos, pode ser? Também te amo, mô.” E daí, atenda a ligação em outro lugar.

ÁLCOOL: Beba, fique alto, toque o terror. Mas não seja idiota. Não é nenhum segredo da CIA que só gente depressiva e fracassada bebe até vomitar. Excesso de euforia pode ser um sinal de que você é um loser – o tipo de informação que é bom guardar pra si, não espalhar pra geral.

FESTA NA RUA: A rua é pública, sim, mas você entendeu tudo errado. O fato de ser pública não significa que a calçada é uma extensão do seu quintal. Quer fazer festa? Faça dentro de casa. Não quer bagunça em casa? Não faça festa. Não sabe respeitar os vizinhos? Alugue uma chácara (de preferência, isolada). Já que a vizinhança não é convidada pra esses barracos que você chama de “festas”, ela não é obrigada a aturar os seus amigos.

LIMITE DE VELOCIDADE 1: Você comprou uma moto que faz 280 km/h? Comprou um carrão turbinado que, quando levado ao limite, rompe a barreira do som? Parabéns! Mas as vias públicas têm limite de velocidade e, no Brasil, são monitoradas com rigidez. Então, é o seguinte: 280 km/h você não vai poder fazer. E pare de colar na traseira do cara da frente! Ele é um cidadão comum, não é filho do Eike Batista (logo, é obrigado a respeitar as leis de trânsito). Por que razão ele deveria andar mais depressa, arriscando-se a levar uma multa? Só pra te fazer feliz? Vá se catar, vacilão.

LIMITE DE VELOCIDADE 2 – A MISSÃO: Supondo que você seja o oposto do babaca aí de cima e goste de passear pela cidade a 20 km/h, mesmo em vias públicas onde a média de velocidade é 60 km/h. Fica a dica: trafegue pela direita. Pra isso serve a direita: pra você tocar o carango tranquilão, ouvindo um CD do Richard Clayderman ou da Enya. Vá na sua, não se apresse – mas também não atrase o próximo. Dependendo do temperamento do “próximo”, a vítima pode ser você.

* * *

E está bom por hoje.

Com jeitinho e com bom-senso, os joselitos não prevalecerão.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

TV - Desastre das Nove



"SALVEM JORGE!"




Novela das oito costuma acabar em casamento. “Salve Jorge” quebrará esta tradição: ao invés de casório, haverá uma avaliação rigorosa de danos e prejuízos.

É que a novela de Gloria Perez está chegando à reta final com o pior Ibope em toda a história da TV Globo na faixa das 21h00. Um feito e tanto, considerando que a emissora vem perdendo progressivamente sua audiência cativa neste horário (nos anos 80, em picos de audiência, as grandes novelas da casa chegavam a 60 pontos; hoje, quando muito, conseguem 30).

Perdeu, Gloria Perez... Perdeu.

* * *

Também, quem manda viajar na maionese?

Como noveleira, Dona Gloria é uma comediante de mão cheia. Chegou a afirmar que os críticos ganhavam propina pra descer a lenha na novela, como se fosse preciso qualquer ajuda externa pra fazer esse Titanic (cada capítulo custa R$ 950 mil) afundar. Na ficção e no mundo real, Gloria Perez delira “forte”. Não tem censo de realidade.

* * *

Antes que o amigo me avacalhe: juro perante a Bíblia que não vejo novela. A menos que a novela seja ruim. Mas eu quero dizer ruim mesmo. Quanto pior, melhor!

Também curto uns programas de auditório ruins – aqueles que promovem encontros românticos entre gente feia ou que discutem temas estranhos (“Transei com minha ovelha”; “amo lamber sabão”; “faço escultura de Bom-Brill”; daí pra baixo). Teste de DNA no Ratinho e programa evangélico com exorcismo ao vivo, então, não perco por nada. Tô dentro!

Mas é raríssimo uma novela da Globo pisar no tomate desse jeito. A emissora carioca tem uma tradição respeitável em folhetins eletrônicos. Vê-la errar tanto em uma novela é tão bom quanto ver o Ridley Scott dirigir uma bomba como “Prometheus”. Não dá pra não ver!

O que é passível de discussão é: como “Salve Jorge” pode ser tão ruim? Eu, que não sou expert no assunto, arrisco uns palpites.

* * *

Pensa que escrever ficção é brinquedo?

Né brinquedo não, muleeeeke!

Tem muito jornalista bom que se embananaria todo se tivesse que escrever um filme, romance ou novela. Pra começar, nada daquilo é verdade – está-se lidando com acontecimentos imaginários, o que facilmente leva à contradição; e se lida com muito mais personagens do que em uma matéria impressa ou televisiva. Ah, e também é preciso pesquisar muito bem os assuntos em pauta, pra não cair no ridículo.

* * *

Dona Gloria acha que é possível escrever sobre a Capadócia (ou sobre os morros cariocas) fazendo pesquisa no Google. Pra você ter uma ideia: o vocabulário estrangeiro de “Salve, Jorge” se resume a Güle Güele (“tchau!”) e AllahAllah (“Ai, meu Deus!”).

E a realidade do morro? A favela fashion da novela lembra o cenário do “Esquenta”: só tem funkeiro “família” e periguete que, apesar de descer até o chão e mostrar a bunda pra geral, está à procura de um grande amor, é “moça pra casar”.

Pior são as bandeiras que “Salve Jorge” levanta (se de propósito ou sem querer, eu não sei). A mais surreal é: “vender o corpo na Capadócia não pode, mas vender o corpo na favela pode, porque isto é Cultura.”

Não sei o que Dona Gloria bebe antes de escrever tanta papagaiada, mas de uma coisa eu sei: quero um gole, meu irmão!

* * *

E também tem os “núcleos”.

A Globo inventou essa moda de “núcleos” pra parecer que suas novelas têm a complexidade das séries que a gente vê na TV por cabo, cheias de personagens e arcos narrativos.

Em “Salve Jorge”, o que não falta é núcleo. Tem o núcleo da favela, o núcleo militar, o núcleo da Capadócia, o núcleo dos ricos abastados, mas infelizes (Zzzzz...) e o núcleo da polícia. Disparado, este último é o melhor: o Rio de Janeiro é uma cidade com seriíssimos problemas de segurança, mas o único caso em andamento na delegacia de Giovanna Antonelli é o de uma favelada chorona que foi obrigada a fazer programa na Capadócia.

A lógica da novela não está nem no núcleo da favela e nem no núcleo da Capadócia.

Está é pra lá de Marrakesh, mesmo.

* * *

Veja bem: eu gosto de filme de lobisomem e sobre viagem no tempo.

Eu estou lendo “Sob a Redoma”, do Stephen King.

Eu era burro em Matemática na escola e bombei duas vezes em Estatística na faculdade.

Que moral eu tenho pra criticar quem assiste novela?

* * *

O que estou dizendo é que, se eu fosse um figurão na dramaturgia da Globo, jamais escalaria a Claudia Raia pra fazer um papel de vilã. Porque a Claudia Raia não é ameaçadora; a Claudia Raia é engraçada.

Jamais aprovaria uma novela cujo mocinho é um babaca de 40 anos de idade que pede qualquer mulher que conheça em casamento (e que prontamente a convida pra ir morar com ele na casa da mãe).

Jamais aprovaria uma novela cuja mocinha se chama “Morena” (Morena do quê? Jambo, Tropicana ou Proibida?) – ainda mais, interpretada por uma “mini-mim” de Solineuza com olhar de Cocker Spaniel abandonado.

E por fim: jamais aprovaria uma novela com a Solineuza em pessoa – de longe a maior arroz-de-festa que o audiovisual brasileiro já conheceu (depois da Camila Pitanga, é claro). Desculpe citar a personagem e não mencionar o nome da atriz.

Não sei como se chama a moça.

* * *

Dizem que as novelas são espelhos fidedignos da autoimagem e das ambições do povo brasileiro em cada momento histórico.

Se isto for verdade, depois de assistir a “Salve Jorge”, estou de malas prontas.

Rumo às colinas!


Crônica - Supermercados, Cafeterias e Aborrecimentos



A POLÍTICA DO MAU ATENDIMENTO




“Algum produto não encontrado, senhor?”

Paro e penso. Se fosse mesmo "pavio-curto", como alguns amigos dizem que sou, responderia: “Sim, dois: boa vontade e profissionalismo.”

Esta pergunta é pró-forma em uma famosa rede de supermercados brasileira. Trata-se de um paradoxo: por um lado, a empresa oferece produtos diferenciados e investe no layout de suas lojas, sempre moderníssimas e elegantes; por outro, o atendimento é péssimo.
 
* * *
 
E acho que isto se estendeu à rede de postos de gasolina do mesmo proprietário, inaugurada há alguns anos: na hora de encher o tanque, a única coisa que não se encontra ali é “gen-gen-gente feliz” (parafraseando um jingle criado para a marca há alguns anos). É comum, nestes empórios turbinados, o cliente se deparar com “caixas rápidos” (só pode ser ironia) lotados de gen-gen-gente infeliz, com carrinhos abarrotados de melancias, fraldas e afins.

Enquanto isso, os “caixas lerdos” (deve ser esta a denominação) se acham às moscas. Quando muito, as atendentes conversam, lixam as unhas ou discutem o capítulo de ontem da novela enquanto o consumidor se descabela e busca uma forma de pagar suas compras e fugir daquele inferno. Quase sempre, é mais difícil fazê-lo do que encontrar a saída do Labirinto de Creta.
 
* * *

Nos postos, é a mesma coisa: em vésperas de feriado, filas de carros se estendem das imediações das bombas ao centro das grandes avenidas. Param o trânsito. Os atendentes, recrutados na mesma instituição mental de onde saem os caixas do supermercado, não têm noção de tempo. Servem um cliente de cada vez, em slow motion. Largam a bomba funcionando, passeiam ao redor dos carros, se entrosam no maior papo... Criar soluções para agilizar o serviço? Nem pensar.

Sequer se dão ao trabalho de nos fazer um “sinalzinho” tranquilizador – muitas vezes, isto já resolve tudo –, dando a entender que, mesmo incompetentes, eles se compadecem de nós (afinal, somos humanos!). “Só um minutinho, chefia”, dizem os frentistas de postos mais simples, sem o pedigree da família Diniz. É muito pedir que os da nova rede decorem esta frase e a recitem com um sorriso no rosto?

Heim? Heim?!
 
* * *

Outra curiosidade sobre os estabelecimentos com o “selo de qualidade” Diniz é que eles são “politicamente corretos”. Sim – as minorias têm empregos em suas lojas e, acredito, também nos postos de gasolina, o que é muito bom (e agora não estou sendo irônico). O café de uma loja que frequento, na Avenida Ricardo Jaffet, por exemplo, se transforma na “gaiola das loucas” depois das 15h00. É engraçadíssimo (agora sim, estou sendo irônico).

O que não é engraçado é que os gays, tanto quanto os heterossexuais, são uns imbecis. Sejam os machões do açougue, sejam as bichinhas que valsam entre o café e o Sushi Bar, todos os funcionários parecem formados na mesma escola da desinformação e da grosseria. Outro dia, uma “biba” indignada não deu pra discutir comigo quando afirmei que não tinha gostado da mudança de posição nas gôndolas? Segundo ela, que vociferava contra a minha ignorância de mãozinhas na cintura, serelepe: "as mudanças atendem aos clientes de bom gosto, senhor!" 

A biba também se inflamou com uma senhora que me deu razão, afirmando que o fato de as prateleiras se encontrarem enviezadas dificultava não só a localização dos produtos, como a locomoção dentro do supermercado. Com a mão na testa, coquete, a bicha nos ignorou e voltou aos seus afazeres. "Afffe!"

Aparentemente, a única exigência primordial para ser funcionário da família Diniz é ser gen-gen-gente imbecil.

Dar ou não a bunda é opcional.

* * *

No fim das contas, talvez tudo isto seja uma estratégia. Veja, por exemplo, o “Franz Café”. Sim – ninguém me tira da cabeça que o mau atendimento no “Franz” é um tipo avançado de estratégia comercial; digamos, um “marketing às avessas”. Os criadores da franquia podem ter descoberto que deixar o cliente ao léu, ou observá-lo a fazer acrobacias mímicas com as mãos enquanto os olhos dos atendentes estrategicamente o evitam, são modos de “fixar” a marca na mente do consumidor.

O atendimento letárgico do “Franz” já virou lenda. Quase não se fala mais do “Chocolate Submarino” (se não me engano, este era o nome do café servido com uma barra de chocolate “Surpresa”, que vinha boiando ludicamente na xícara) ou nas “sopas no pão italiano”: o barato é comentar a lerdeza dos atendentes, invariavelmente, uns indolentes.

* * *

Tomar café no “Franz” se tornou um modo cool de matar o tempo. Sempre vou ao “Franz” quando chego adiantado a uma entrevista ou a um compromisso profissional. Ao invés de esperar na recepção de uma produtora ou emissora de TV, procuro um “Franz” nas imediações, peço um café e me preparo para horas e horas de espera contemplativa na calçada, até que um mísero Espresso chegue à minha mesa. Nesse meio-tempo, crianças nascem, moribundos morrem, golpes de estado derrubam presidentes em nações estrangeiras e a Terra navega pelo espaço, sem pressa...

* * *

Deve ser por isso que as lojas do “Franz” têm aquelas gôndolas cheias de livros; provavelmente, alguém já leu “Guerra e Paz” ou “Moby Dick” na íntegra esperando por um prato mais complicado, como o “Rondelli Quatro Queijos” ou o “Raviolone de Abóbora com Queijo Parmesão”. Se você pedir sobremesa, então, terá tempo para escrever uma monografia sobre o assunto!

* * *

O inverno está chegando. E se você quer emoção e aventuras, sugiro que faça o seguinte: ao invés de gastar seu dinheiro em um tour pelas Serras Gaúchas, vá ao “Franz” mais próximo, escolha uma mesa na calçada, pergunte qual é o prato mais demorado e solicite-o à atendente tapada.

Depois, com um sorriso cínico no rosto, enrole-se em seu cachecol e curta a “viagem”.

Será uma noite longa e fria!


Crônica - Insetos e Esquisitices



"QUE BARATO!"




Foi fuçando casualmente o jornal, em busca de um programinha “light” para o fim de semana, que trombei com a seguinte nota:

“Domingo é o último dia para levar as crianças à corrida de baratas no Instituto Biológico. É uma das atrações do ‘Planeta Inseto’. Criadas com ração especial (como todo puro-sangue), os bichos competem em uma pista especial batizada de ‘Baratódromo’.”

* * *

Qualquer gracinha que o mantenedor deste blog queira fazer daqui para frente não superará a realidade dos fatos – e do próprio texto (suspeito ser a transcrição do primeiro parágrafo de um press release), simplesmente hilariante.

Afinal: por que diabos alguém levaria o filho, em pleno domingo, ao “Planeta Inseto”? Nem o casal Nardoni pensou em algo tão cruel para torturar crianças. Imagine só, na segunda-feira, o papo do guri com os coleguinhas, na fila do colégio:

“_Foi ‘da hora’! Papai e eu fomos ao ‘Planeta Inseto’! Assistimos à final da corrida de baratas! As baratas do ‘Planeta Inseto’ são criadas com ração especial, como os puros-sangues! E vocês sabiam que elas competem em uma pista batizada de ‘Baratódromo’?”

* * *

E eu achava ter sofrido na infância, quando era levado aos chatíssimos desfiles militares de 07 de setembro. Não tinha jeito: eu morava a duas quadras do Campo de Marte, em Santana (Zona Norte de São Paulo). Mesmo que eu não fosse ao desfile, o desfile passava ao lado da minha casa.

Também fui vítima da Ditadura!

* * *


Estou de sacanagem – o Planetário (se é que já consertaram aquela joça), o Instituto Biológico, o Instituto Butantã e o Zoo são locais muito bacanas para levar a garotada. Mas sob um prisma didático. Melhor seria ir com o colégio a esses lugares. Ir com o pai e com a mãe é uma tremenda crocodilagem...

E depois: quem realmente acha que qualquer atividade exercida por baratas possa ser “divertida”? Que catzo interessa o que elas comem? E imagine o fuzuê da mulherada se a vencedora da corrida pular o alambrado e for comemorar a vitória com a torcida?

Pensando bem: não sei quem sofre mais com esse tipo de competição. Se as crianças ou as baratas.

* * *

Expostas a toda sorte de perigos em um mundo de gigantes que as odeiam, as “cascudas” estão sujeitas aos maus-tratos e às ações genocidas dos humanos.

Eu mesmo, aos 12 anos, aniquilei dezenas delas munido de um frasco de Rodox. Descobri que borrifar Rodox no ralo do quintal de casa fazia com que o “inimigo” corresse para o bueiro da rua. Alternando-me entre um posto e outro, tive meu dia de General Custer, espalhando exoesqueletos pela calçada.

Com a idade, fiquei bundão. Hoje, chego ao cúmulo de espantar as baratas com o bico do sapato, conduzindo-as até a porta, ao invés de matá-las. Só extermino uma se não tiver jeito – primeiramente, tento uma negociação de paz.

A barata tem a opção de deixar meu território, onde não é bem-vinda, e ir chatear os meus vizinhos (estará me fazendo um favor), antes de levar um pisão ou uma chinelada. Algumas entendem, outras não – isto define seus destinos. Fato é: a ideia de matar qualquer coisa desnecessariamente, hoje, me parece muito idiota.

Tão ou mais idiota que uma “competição de baratas” no “Planeta Inseto”.


* * *


Ao menos, competições esdrúxulas não são privilégios dos brasileiros. Outros povos as cultuam, o que deve fazer uma barata – se é que este bicho é capaz de qualquer reflexão abstrata – se perguntar de onde veio a denominação “sapiens” que sucede o “homo” em nosso pedigree evolutivo.

Há alguns anos, o terrier “Buddy” foi a atração do “Surf Dog Surf-A-Thon”, realizado nos EUA. É isso aí: trata-se de uma iniciativa do “Centro de Animais Helen Woodward”, na qual cães são mandados para o mar amarrados em pranchas de Surf. Bom, heim?


* * *

Os japoneses também se amarram em uma bizarrice. Talvez seja um efeito-ressaca da bomba atômica, sei lá – mas o senso de humor nipônico desafia a nossa compreensão. Eles riem de tudo o que é terrível.

Há alguns anos, assisti a flashes de um programa de TV local em que os competidores eram enterrados vivos, ficando apenas com as cabeças acima da superfície. Enquanto isso, cães ferozes, de presas arreganhadas, rodeavam os crânios espetados na terra e avaliavam se deveriam começar o banquete pelas orelhas, pelo nariz ou pelos olhos. Tudo muito engraçado, saca?

* * *

Aliás: é política de certas províncias japonesas criar atrações esquisitas para incentivar o turismo. Trata-se de um movimento denominado Chiiki Zukuri, inventado para potencializar a economia dessas cidades.

Um exemplo de asneira inventada pelo “Chiiki Zukuri” é a “Briga de Touros de Okinawa”: 800 animais se enfrentam em combates sangrentos, para apreciação de centenas de espectadores. E você achava que a “Farra do Boi” era coisa de país subdesenvolvido...

* * *

No Japão, também temos a “Corrida de Lulas”. Para participar, basta desembolsar 600 ienes em uma lula e inscrevê-la na competição. Estava pensando em oferecer 1.200 ienes (e uma garrafa de pinga 51) ao “nosso” Lula, pra ver como o presidente se sai em uma competição contra outros cefalópodes. Lula tem grandes chances: que outro exemplar da espécie torce para o Corinthians, tem nove dedos e já foi chamado de “meu homem” por Obama? Não tem pra ninguém, rapaz.

* * *

Pior é quando o homem desempenha o papel das lulas e das baratas.

Proibido na Flórida (EUA) desde 1989, o “campeonato de arremesso de anões” (sic) é um must naquele país. Apesar de pressões exercidas por associação como a Little People of America (LPA), há gente entrando com recursos na Justiça para que o “esporte” volte a ser praticado em bares e universidades. Basicamente, o “arremesso de anões” requer um sujeito grandalhão (no caso, o competidor), devidamente “engraxado” com cerveja Budwiser, e outro “verticalmente prejudicado” (fazendo o papel de disco de freezby).

* * *

De todas as atividades excêntricas que existem por aí, acho que eu teria mais chances no “Torneio de Arremesso de Celular”. A prova foi inventada na Finlândia, em 2000. Os juízes levam em conta não só a distância a que o aparelho é arremessado, mas o modo como o competidor o faz. Quanto mais estilo, melhor.

Sem falsa modéstia: sou um Michael Phelps nessa categoria! Arremessei celulares do alto de prédios (verificando, antes, se a trajetória os levaria a terrenos baldios ou a qualquer área desabitada), paredes de hotéis (a esta distância, eles explodem como fogos de artifício; é lindo) e até de um carro em movimento, em plena Marginal do Tietê.

* * *

Também sou perito em “luta de boxe contra eletrodomésticos” – nocauteei quatro ou cinco videocassetes (alguns nunca se recuperaram, mas aprenderam a não morder minhas fitas) – e em “vale-tudo” contra micro-ondas. E, em tempos anteriores à TV a cabo, desenvolvi uma técnica de “chute circular na antena interna”, último e desesperado recurso quando a palha de aço não conseguia remover os “fantasmas” da imagem. Dificilmente dava resultados. Mas meus amigos adoravam!

* * *

É isso aí: iniciei este post condenando a “corrida de baratas”. Mas, na conclusão, já começo a pensar se não será uma boa ideia...

De racionais e de insanos, todos nós temos um pouco.



terça-feira, 7 de maio de 2013

Cinema - "50 Anos de James Bond"



JAMES BOND: LICENÇA PARA MATAR (E PARA NÃO MORRER)




No escurinho do cinema, os primeiros acordes de um tema musical famoso (reconhecido por gerações de espectadores) antecedem uma cena familiar: um agente secreto caminha pela tela, volta-se para o público e dispara. E quando uma cortina de sangue gráfico turva o nosso olhar, estamos prontos para aceitar o “inaceitável”. É de boa vontade que mergulhamos no absurdo e glamouroso mundo de James Bond, onde as mulheres são sempre belas e fatais, o suspense e o romance coexistem com a ficção científica e vilões fabulosos conspiram para subverter a ordem mundial.

Sim, é um jogo marcado. O agente 007 sempre vence no final, independentemente dos venenos, chapéus com abas mortais ou lasers industriais que os inimigos usem contra ele. Mas não há porque se sentir culpado: um cinéfilo que jamais vibrou com pelo menos uma aventura do superespião criado pelo escritor Ian Fleming (1908-1964) é como um gourmet que se recusa a reconhecer o apelo de um bom fast-food, apenas porque a comida é feita no esquema “linha de montagem”: não sabe o que está perdendo.

A julgar pelo que se passa em seus filmes, muitos poderão atribuir a invejável longevidade do cinqüentão 007 – na verdade, quase “sessentão”, se considerarmos o ano de publicação de “Cassino Royale” (1953), primeiro romance de Fleming – à sorte e aos gadgets que ele usa em suas missões (carros com assento ejetor ou equipados com desfibrilador; cigarros explosivos; minissubmarinos em forma de jacaré; a lista é extensa!).

Mas, na verdade, a “arma secreta” que mantém Bond eternamente jovem é o notável senso de adaptação do personagem, que surgiu como um paradigma das ansiedades do Ocidente na época da Guerra Fria e acabou se tornando um herói quase “apolítico” em tempos mais recentes. Um espectador atento notará que os sotaques dos vilões mudam de acordo com o cenário político de cada era: de inimigo dos russos e da China Vermelha nos primeiros filmes, lançados na década de 1960, Bond passou a trabalhar com agentes desses países nas aventuras dos anos 80 e 90, à medida que os terroristas se configuravam uma ameaça mais atual e plausível para o público.

Os produtores que criaram a mais famosa série cinematográfica de todos os tempos – a dupla Albert Broccoli e Harry Saltzman, que adquiriram os direitos sobre os livros de Fleming e fundaram a EON Productions – também se mostraram hábeis em adaptar o conceito original do personagem (e seu surreal universo) às demandas do público. Bond foi idealizado por Fleming como um sujeito fisicamente semelhante ao cantor Hoagy Carmichael – moreno, de cabelos pretos, com nariz longo e reto e 1,83m de altura – mas, no cinema, encarnou em biótipos tão diferentes como os de Sean Connery, Pierce Brosnan e, mais recentemente, Daniel Craig (de longe, o intérprete que menos corresponde à ideia que Fleming fazia de Bond). Sempre correspondendo aos ideais estéticos de cada tempo.

Da mesma forma, os filmes (que criaram uma mitologia peculiar na década de 1960, com mulheres usando decotes e penteados ousados e cenários dignos das aventuras de Julio Verne, como o vulcão extinto que serve de base para o vilão Blofeld em “Só Se Vive Duas Vezes”) foram incorporando tendências mais contemporâneas à medida que outros ícones – como Rambo e Indiana Jones – passaram a disputar com Bond as atenções da plateia.

Nos anos 1970, pegando carona no êxito de “Operação Dragão” e “Star Wars”, James Bond aprendeu Kung Fu e foi ao espaço (respectivamente, em “O Homem da Pistola de Ouro” e “O Foguete da Morte”). Depois, já sob a influência de Spielberg e Stallone, foi um “Indiana Jones dos ricos” em “Octopussy” e teve seu momento “exército de um homem só” no violento “Permissão Para Matar” (a primeira tentativa de injetar realismo e ultra-violência em um filme do herói, esforço, então, incompreendido pela crítica e pelo público).

Quando analisamos James Bond no microscópio, notamos que um único elemento de seu “DNA” original se mantém virtualmente intocado após tantas aventuras e romances atribulados: a imortalidade. O mundo se tornou mais efêmero e urgente desde 1962 (ano em que “O Satânico Dr. No” chegou aos cinemas). Mas duas coisas se mantém eternas: os diamantes e 007.

FILMOGRAFIA: JAMES BOND ATRAVÉS DOS TEMPOS


007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO


(Dr. No, 1962)
Direção: Terence Young. Com Sean Connery, Ursula Andress, Joseph Wiseman, Jack Lord e John Kitzmiller.

James Bond vai à Jamaica combater o Dr. No, industrial que opera sob as ordens da organização Spectre e que pretende sabotar o Programa Espacial estadunidense. Feito com orçamento modesto (US$ 1 milhão) e estrelado por um ator ainda desconhecido (Sean Connery, quem mais?), o filme definiu o “tom” das aventuras de 007 no telão (mais pautadas pela fantasia que os livros originais). E o mundo nunca esqueceu a imagem de Ursula Andress emergindo do mar, de biquíni branco e faca na cintura. 

MOSCOU CONTRA 007


(From Russia With Love, 1963)
Direção: Terence Young. Com Sean Connery, Daniela Bianchi, Robert Shaw, Pedro Armendariz e Lotte Lênya.

A Spectre promove a hostilidade entre ingleses e soviéticos em uma intriga que envolve uma bela desertora russa, uma máquina decifradora de códigos e um mirabolante plano para assassinar Bond no Expresso do Oriente. Um dos melhores filmes da série, fiel ao romance em que se inspirou e com um genuíno clima de “Guerra Fria”. O ponto alto é uma luta entre Bond e o carrasco da Spectre, Grant (Robert Shaw, ótimo), orquestrada com maestria pelo diretor Young.

007 CONTRA GOLDFINGER


(Goldfinger, 1964)
Direção: Guy Hamilton. Com Sean Connery, Honor Blackman, Gert Froebe, Harold Sakata e Shirley Eaton.

Patrocinado pela China Vermelha, o milionário Auric Goldfinger tenta explodir uma bomba atômica dentro do Fort Knox, onde estão estocadas as reservas em ouro dos EUA. Aqui, a fórmula estabelecida nos filmes anteriores chegou à perfeição – méritos para o diretor Hamilton, que adicionou pitadas de humor sardônico à mistura. Destaque para os vilões fenomenais: Goldfinger (um sociopata obcecado por ouro) e seu lugar-tenente Oddjob, que despacha os desafetos do patrão degolando-os com uma cartola mortal.

007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA


(Thunderball, 1965)
Direção: Terence Young. Com Sean Connery, Claudine Auger, Adolfo Celi, Luciana Paluzzi e Rick Van Nutter.

A Spectre se apodera de bombas atômicas e ameaça explodir duas cidades do Ocidente, a menos que receba um resgate astronômico. James Bond enfrenta o vilão Emilio Largo (Adolfo Celi, usando um tapa-olho), nada desarmado em uma piscina cheia de tubarões (e coberta por placas de metal!) e seduz a sexy amante de seu oponente, vivida pela escultural Claudine. Quase tão divertido quanto “Goldfinger”, mas, às vezes, um pouco arrastado nas cenas submarinas.

COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES


(You Only Live Twice, 1967)
Direção: Lewis Gilbert. Com sean Connery, Mie Hama, Donald Pleasence, Akiko Wakabayashi e Tetsuro Tamba.

No Japão, 007 finalmente encontra seu nêmesis: Ernst Stavro Blofeld, chefão da Spectre, agora refugiado dentro de um vulcão extinto e prestes a inaugurar a Terceira Guerra Mundial. Rendendo-se totalmente à fantasia (o que justifica o visual deliciosamente absurdo da aventura, a primeira de Bond a chegar ao espaço), o filme teve roteiro assinado por Roald Dahl (autor do livro “A Fantástica Fábrica de Chocolate”) e bebeu pouquíssima inspiração na obra de Fleming. Boa música-tema (cantada por Nancy Sinatra).

CASSINO ROYALE


(Casino Royale, 1967)
Direção: John Huston, Ken Hughes, Val Guest, Robert Parrish e Joseph McGrath. Com Peter Sellers, Ursula Andress, David Niven, Orson Welles, Woody Allen e Deborah Kerr.

Já aposentado, “sir” 007 (interpretado por David Niven) entra em ação para frustrar os planos da organização Smersh. Para confundir o inimigo, o Serviço Secreto Britânico delega o nome “James Bond” a vários agentes e colaboradores, entre eles, o escritor Evelyn Tremble (Peter Sellers), um expert em jogos de cartas. Usando a identidade de Bond, Tremble é seduzido por Vesper Lynd (Ursula Andress) e enfrenta o jogador Le Chiffre (Orson Welles) na mesa de Bacará. Também na mira do MI6 está o baixinho Dr. Noah (Woody Allen), que desenvolveu um bacilo que transformará todas as mulheres do mundo em beldades e destruirá todos os homens altos da Terra (!). Assim como “Nunca Mais Outra Vez”, esta comédia-maluca é um filme “não-oficial” de 007, ou seja: não foi produzido pela EON Productions.

007 A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE


(On Her Majesty’s Secret Service, 1969)
Direção: Peter Hunt. Com George Lazenby, Diana Rigg, Telly Savalas, Ilse Steppat e Gabriele Ferzetti.

James Bond volta a enfrentar Blofeld – desta vez, na Suíça, de onde o vilão articula uma guerra biológica que poderá extinguir a vida no planeta. Pela primeira vez, o mulherengo 007 se apaixona de verdade e sobe ao altar. Pena que a esposa em questão, a temperamental Condessa Tracy di Vicenzo, esteja fadada a ter um destino trágico. Primeiro filme de Bond não estrelado por Connery, o projeto foi um injusto fracasso de crítica e decepcionou nas bilheterias. Mas George Lazenby não se saiu mal como 007 (apesar de não ter o carisma de seu antecessor).

007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS


(Diamonds are Forever, 1971)
Direção: Guy Hamilton. Com Sean Connery, Jill St. John, Charles Gray, Bruce Glover e Putter Smith.

Blofeld volta a atacar, agora, usando os proventos de uma gangue de contrabandistas de diamantes para equipar um super-refrator de laser e chantagear as superpotências. Após a frívola recepção ao projeto anterior, Connery (visivelmente desinteressado e acima do peso) voltou a viver Bond neste filme, visualmente curioso e com algumas boas ideias, mas cujas cenas de ação, quase sempre, são sabotadas por intervenções de humor.

COM 007 VIVA E DEIXE MORRER


(Live and Let Die, 1973)
Direção: Guy Hamilton. Com Roger Moore, Jane Seymour, Yaphet Kotto, Julius W. Harris e David Hedison.

James Bond precisa impedir que um diplomata corrupto, Dr. Kananga, despeje uma tonelada de heroína no submundo dos EUA, obtendo o monopólio do mercado de entorpecentes. Filme que marcou a estreia de Roger Moore no papel de 007. Influenciada pela Blackexploitation (“onda” de filmes direcionados ao público afro-descendente), esta aventura tem cenas bacanas filmadas em Nova York e em Nova Orleans, além de uma Bond Girl lindíssima (Jane) e uma música-tema memorável (“Live and Let Die”, composta por Paul McCartney). Mas falta aquela centelha de tensão e erotismo dos longas anteriores.

007 CONTRA O HOMEM COM A PISTOLA DE OURO


(The Man with the Golden Gun, 1974)
Direção: Guy Hamilton. Com Roger Moore, Britt Ekland, Christopher Lee, Maud Adams e Herve Villechaize.

Scaramanga, o assassino profissional mais caro do mundo (representado pelo Drácula mais “pop” do cinema, Lee) se apodera de um agitador Solex (aparelho que produz energia solar) e tenta leiloar a nova tecnologia entre as superpotências. Um filme cheio de altos e baixos que, apesar da proposta bacana e dos ótimos vilões (o anão Villechaize quase rouba o filme como o lugar-tenente de Scaramanga) não chega a ser memorável pela inconsistência da realização.

007 – O ESPIÃO QUE ME AMAVA


(The Spy who Loved Me, 1977)
Direção: Lewis Gilbert. Com Roger Moore, Barbara Bach, Curt Jurgens e Richard Kiel.

Quando a Inglaterra e a Rússia passam a ter submarinos atômicos seqüestrados em pleno mar, James Bond e uma agente soviética unem forças contra o responsável pela conspiração: o magnata Karl Stromberg, que mora em uma cidadela submarina e pretende – simples assim – destruir o mundo e criar outra civilização nas profundezas. O melhor Bond de Roger Moore, memorável por vários fatores: o vilão Jaws (Kiel), cujos dentes de aço esmigalham tudo o que há pela frente; a direção de arte inspirada; e um time de Bond Girls para ninguém botar defeito.

007 CONTRA O FOGUETE DA MORTE


(Moonraker, 1979)
Direção: Lewis Gilbert. Com Roger Moore, Lois Chiles, Michael Lonsdale e Richard Kiel.

Bond volta a enfrentar Jaws – agora, sob as ordens de outro megalomaníaco, o neonazista Hugo Drax. O roubo de um ônibus espacial coloca 007 na pista do vilão, cuja ambição é destruir a humanidade e repovoar a Terra com uma raça de humanos perfeitos. O esconderijo de Drax é uma estação espacial – a deixa para o filme imitar “Star Wars” e outros sucessos do gênero que bombavam nos cinemas da época. Única produção de Bond com cenas ambientadas no Brasil (o ponto alto é uma luta entre o herói e Jaws no bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro). Não é tão legal quanto “O Espião que me Amava”, mas diverte.

007 SOMENTE PARA SEUS OLHOS


(For Your Eyes Only, 1981)
Direção: John Glen. Com Roger Moore, Carole Bouquet, Julian Glover e Topol.

Bond tenta recuperar um sistema capaz de ativar mísseis britânicos à distância, arma que, nas mãos dos russos, poderá colocar a Inglaterra de joelhos. O vilão é um agente-duplo que, apesar das boas relações com a Coroa, pretende localizar o dispositivo antes de 007 e vendê-lo aos soviéticos. Uma estranha mudança de rumo da série, que vinha apostando na fantasia descarada nos longas anteriores e, aqui, retomou o espírito dos livros de Fleming, em uma trama de espionagem tão realista quanto a de “Moscou Contra 007”. O filme teve uma das melhores músicas-temas da série (“For Your Eyes Only”, interpretada por Sheena Easton).

007 CONTRA OCTOPUSSY


(Octopussy, 1983)
Direção: John Glen. Com Roger Moore, Maud Adams, Louis Jordan e Steven Berkoff.

Um príncipe afegão e um extremista russo se unem em um plano para detonar uma bomba atômica norte-americana dentro das fronteiras da Alemanha Oriental, o que criará um embaraço diplomático incontornável e forçará potências como a Inglaterra e os EUA a se desarmar, deixando o território livre para um levante soviético. Obviamente influenciado por “Caçadores da Arca Perdida”, este filme lembra um seriado dos anos 1940, com perseguições rocambolescas na Índia e 007 fazendo de tudo para impedir o pior, até vestir-se de palhaço. Mas o roteiro é inventivo, o elenco é ótimo e as piadas funcionam.

007 – NUNCA MAIS OUTRA VEZ


(Never Say Never Again, 1983)
Direção: Irvin Kershner. Com Sean Connery, Max von Sydow, Klaus Maria Brandauer, Kim Bassinger e Barbara Carrera.

Maduro e às vésperas da aposentadoria, 007 precisa voltar à ativa quando Ernst Stavro Blofeld (desta vez, vivido pelo grande Max von Sydow, o tipo de ator que ninguém espera ver em um filme de James Bond) decide chantagear a Terra com bombas nucleares roubadas. Esta é uma refilmagem de 007 Contra a Chantagem Atômica e, portanto, não faz parte da série oficial do personagem (produzida pela EON). Destaque para a sensual Barbara Carrera, no papel de uma assassina da Spectre, e para Kim Bassinger (no auge da beleza), que interpreta a mocinha Domino.

007 NA MIRA DOS ASSASSINOS


(A View to a Kill, 1985)
Direção: John Glen. Com Roger Moore, Tanya Roberts, Christopher Walken e Grace Jones.

O vilão da vez é outro milionário sociopata, o magnata Max Zorin (Walken, sempre uma atração nesses papéis), cujo objetivo é destruir o Vale do Silício, nos EUA, e dominar o mercado de componentes para computadores. A cantora Grace Jones rouba muitas cenas como a assassina May Day. Apesar de movimentado e simpático, o filme não empolga (exceto na abertura, musicada por um sucesso da banda Duran-Duran, “A View to a Kill”, e no clímax apoteótico, com direito a uma luta no alto da Ponte Golden Gate, em São Francisco, EUA).

007 MARCADO PARA A MORTE


(The Living Daylights, 1987)
Direção: John Glen. Com Timothy Dalton, Maryam d’Abo, Jeroen Krabbe e Joe Don Baker.

Um militar russo e um comerciante de armas lucram com os conflitos gerados pela ocupação soviética no Afeganistão. Para detê-los, 007 se associa a radicais islâmicos que lideram a resistência no país. Timothy Dalton assumiu o papel de 007 nesta aventura, uma das melhores e mais consistentes da série, que renovou o fôlego do personagem e da franquia. A música-tema também fez sucesso (é interpretada pela banda norueguesa A-Ha).

007 PERMISSÃO PARA MATAR


(Licence to Kill, 1989)
Direção: John Glen. Com Timothy Dalton, Carey Lowell, Robert Davi, Talisa Soto e Anthony Zerbe.

007 se desliga do Serviço Secreto de Sua Majestade para vingar o melhor amigo, Felix Leiter, mutilado pela organização de um senhor das drogas, Franz Sanchez. Muito violento e sem o verniz das aventuras anteriores (mas ainda preservando a elegância do personagem), o filme dividiu opiniões. Dalton está muito bem no papel e Robert Davi interpreta um oponente memorável, mas o tom excessivamente casual da trama, às vezes, lhe confere um ar de episódio de “Miami Vice”.

007 CONTRA GOLDENEYE


(GoldenEye, 1995)
Direção: Martin Campbell. Com Pierce Brosnan, Izabella Scorupco, Sean Bean, Famke Janssen e Judi Dench.

À frente da organização criminosa Janus, um agente renegado do M.I.6, Alec Trevelyan (vulgo “006”), obtém acesso ao satélite militar GoldenEye, relíquia da Guerra Fria que ele pretende utilizar para aniquilar a Inglaterra. Pierce Brosnan estreou como 007 em um filme charmoso, que reinventou com estilo os mais sagrados clichês da série, mas com uma “pegada” contemporânea. A lamentar, só a trilha eletrônica de Eric Sierra, que combina tanto com os filmes de Bond quanto o Rap combinaria com a trilogia “O Senhor dos Anéis”.

007 – O AMANHÃ NUNCA MORRE


(Tomorrow Never Dies, 1997)
Direção: Roger Spottiswoode. Com Pierce Brosnan, Michelle Yeoh, Jonathan Pryce, Teri Hatcher e Judi Dench.

Um empresário das telecomunicações usa sua influência e poder para provocar uma guerra entre a Inglaterra e a China. Assistido pela agente comunista Wai Lin (Yeoh), James Bond tenta frustrar o esquema diabólico. Uma boa aventura do herói, repleta de perseguições e absurdos, mas mantendo um pé na realidade. As armas secretas utilizadas por Bond, como sempre, são surpreendentes – aqui, ele pilota uma BMW 750iL equipada com “opcionais” mortíferos.

007 – O MUNDO NÃO É O BASTANTE


(The World is not Enough, 1999)
Direção: Michael Apted. Com Pierce Brosnan, Sophie Marceau, Robert Carlyle, Denise Richards e Judi Dench.

No rastro do anarquista Renard, responsável pela morte de um industrial, Bond descobre uma conspiração para destruir as rotas convencionais de petróleo, o que dará a uma organização criminosa o monopólio do setor. Um filme sóbrio para os padrões da série, com vilões bem construídos e uma participação marcante da francesa Sophie, no papel da misteriosa Elektra King. Tem, ainda, uma das aberturas mais criativas da série (uma perseguição de tirar o fôlego pelo Rio Tamisa) e a despedida “oficial” do personagem “Q” (inventor das armas secretas utilizadas por 007, interpretado pelo falecido Desmond Llewelyn em quase todos os filmes).

007 – UM NOVO DIA PARA MORRER


(Die Another Day, 2002)
Direção: Lee Tamahori. Com Pierce Brosnan, Halle Berry, Toby Stephens, Rosamund Pike e Judi Dench.

James Bond combate um radical norte-coreano que literalmente “muda de cara” para orquestrar um plano terrorista: utilizar um satélite bélico para destruir a zona desmilitarizada da Coréia, criando um incidente que redundará no surgimento de uma nova potência. A despedida de Brosnan do papel se deu em um filme nostálgico, cheio de referências ao passado da série e bem-sucedido na maioria dos absurdos que propõe – mas maculado por uma ridícula cena em que Bond “voa” sobre uma geleira com um paraglider improvisado (cortesia de um tosco efeito digital). Constrangedor.

007 – CASSINO ROYALE


(Casino Royale, 2006)
Direção: Martin Campbell. Com Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikkelsen, Judi Dench, Jeffrey Wright e Giancarlo Giannini.

Com sua “licença para matar” recém-adquirida, Bond é enviado por M em uma missão “espinhosa”: descapitalizar Le Chiffre (Mikkelsen, excelente) – banqueiro que financia terroristas –, em uma partida de “Texas Hold 'Em”. Esqueça tudo o que você viu até aqui: neste filme, por razões nunca suficientemente explicadas (a franquia ia bem quando Brosnan deixou o papel), os produtores decidiram reiniciar a série e reinventar o herói. Resultado: esta produção bem-realizada, mas discutível no que diz respeito ao personagem, agora vivido por Daniel Craig e quase irreconhecível sem suas características essenciais (o refinamento, o senso de humor e o “donjuanismo”). A cena de jogo é devastadora (no bom sentido), assim como a da tortura. Mas será que o mundo precisa de um 007 que se dispõe a matar um inimigo com uma faca de cozinha? Próximo!

007 – QUANTUM OF SOLACE


(Quantum of Solace, 2008)
Direção: Marc Foster. Com Daniel Craig, Olga Kurylenko, Mathieu Amalric, Judi Dench e Giancarlo Giannini.

Na pista da organização criminosa que articulou os eventos do filme anterior (e ainda abalado com a perda de seu interesse romântico naquela aventura, Vesper Lynd), Bond descobre um plano do empresário Dominic Greene (Amalric) e de um general corrupto para levar à frente um golpe de Estado. Mantendo o tom realista de “Cassino Royale”, o filme tem cenas de ação de tirar o fôlego (a abertura é particularmente memorável). Mas o enredo e a realização não são inspirados como os do longa de 2006.

007 – OPERAÇÃO SKYFALL (Crítica / Lançamento do filme - 2012)




Durante décadas, os filmes de James Bond se escoraram em uma fórmula infalível. Em alguns, predominava o humor – em outros, a ação ou a fantasia. Porém, apesar de ligeiras variações, a série "007" era um gênero em si. Mas em 2006 os produtores da franquia optaram por deixar de fazer "filmes de 007" e passar a fazer "filmes de ação" (mesmo que protagonizados por um indivíduo identificado como "007"). Subitamente, Bond deixou de ser sofisticado, inteligente, irônico e mulherengo. Com seu jeitão lacônico, Daniel Craig fez sua parte para humanizar 007, mas logo se descobriu que reduzir um personagem tão bacana a um mero agente de campo não era a melhor forma de se reinventar a roda.

Entra em cena, então, "007 – Operação Skyfall", que redime as intenções originais dos produtores. A aventura reúne o melhor de dois mundos: não abdica do dinamismo e da testosterona dos últimos filmes de Bond, mas promove o bem-vindo resgate de algumas características essenciais de 007 que andavam esquecidas. Pela primeira vez, o James Bond de Daniel Craig desperta simpatia no público. E, como se constata, adicionar carisma e sagacidade àquela "persona" implacável que Craig construiu em "Cassino Royale" em nada depõe contra a modernização do mito. Ao contrário: agrega valor a esta leitura contemporânea do herói e mostra que, talvez, o ator estivesse sendo subaproveitado, uma vez que consegue imprimir maior latitude ao personagem quando o roteiro o exige.

É claro que, pela atual fase da franquia ser comprometida com o realismo (e porque não seria inteligente subverter a regra a essas alturas do campeonato), não foi possível alçar voos igualmente surpreendentes no que se refere à trama. Este 007 continua a enfrentar vilões de carne e osso – ninguém o verá combater um gigante com dentes de aço ou um chefão do crime que eletrocuta subalternos com uma mão e acaricia um gato angorá com a outra.

O vilão da vez é o tecno-terrorista Raoul Silva (Javier Bardem, ótimo), que articula uma conspiração contra o MI6 e, particularmente, contra a maternal chefe de Bond, M (Judi Dench). No entanto, à sua maneira, Silva é mais uma daquelas criações memoráveis que só a série Bond consegue entregar: tão cedo, ninguém esquecerá o tipo esquisito e andrógino que põe em cheque a inteligência britânica e que instaura o caos em Londres, com uma displicência digna do alucinado Coringa de "O Cavaleiro das Trevas".

O que mais? Se o mocinho e o vilão não forem suficientes para justificar o preço do ingresso, o espectador (assim como os fãs inveterados do herói) ainda se deliciará com a fotografia inspirada, a boa trilha sonora (capitaneada pelo tema musical de Adele, outro acerto), as coreografias de ação de cair o queixo e um irresistível rasante na mitologia original do personagem (extraída dos livros de Ian Fleming, que se mantém inesgotáveis fontes de inspiração para os realizadores) – quando "Skyfall" nos leva à Escócia e nos apresenta as origens de James Bond.

O filme poderia ser melhor? Talvez (o "Q" adolescente tem lá seu apelo, mas não deixa de ser uma das mais pueris inovações propostas pela série; e as Bond Girls são tão esquecíveis quanto as de "Quantum of Solace"). Mas não é todo dia que uma superprodução destinada ao grande público (e inexoravelmente presa a um passado de glórias, que projeta uma sombra imensa) obtém tamanho equilíbrio entre inovação e tradição. Novamente, James Bond tem um jogo e tanto nas mãos.

Artigos e crítica originalmente veiculados no portal UOL