terça-feira, 18 de junho de 2013

Crônica - Réquiem para um Homem de Bem



A BOA COLHEITA




Ontem o país estava à beira de uma revolta civil. Mas meu amigo não tinha olhos ou ouvidos para o que acontecia lá fora (e para o que se noticiava na TV). Meu amigo acabara de perder o pai para uma doença renitente que, há uma década ou mais, o mantinha preso em um leito de hospital. Foram anos de sofrimento, de inércia agônica, mas Tio Pedro descansou, enfim.

 Até aí, OK: é o curso natural das coisas. A gente tem que aceitar.

* * *

Difícil é lidar com isto em um dia como ontem.

Diferentemente de levantes populares, tragédias pessoais não aparecem nos jornais; não bombam na mídia; não ganham repercussão pública. Elas eclodem em retumbante silêncio.

Em dias assim, o que já é inimaginavelmente doloroso doi ainda mais. Nos sentimos ainda mais sós no luto. Contamos ainda menos com os outros para administrar a perda. O mundo está pouco se lixando se a base de toda a nossa existência acabou de ruir.

Não deveria ser assim. Mas é.

* * *

Por telefone, tentando esconder o choro (como se isso fosse necessário), ele só me pediu uma coisa: que eu fizesse um pensamento por seu pai.

Mas eu fui além e fiz mais do que um pensamento. Rebobinei minhas memórias, resgatei arquivos empoeirados, reconstruí um passado e, de repente, revi a sala de sua casa nos anos 70 e 80; a janelona que dava para a rua, a enorme estante cheia de livros (incluindo a coleção completa da Enciclopédia Britânica), a samambaia que pendia do teto e a mesinha de centro que sempre mudava de lugar... Emocionei-me e ri sozinho.

* * *

A verdade é que, apesar de nunca mais tê-lo visto desde que ficou doente (por razões que não convém listar aqui), não me faltam memórias do Tio Pedro.

Tio Pedro levantando pesos na garagem de casa, de camiseta branca Hering e cabelos lustrosos; Tio Pedro chegando do trabalho e se sentando conosco à mesa da sala, para ver o que tanto desenhávamos naquelas folhas de sulfite (era sempre a mesma coisa: histórias de monstros ou de alienígenas).

Tio Pedro dirigindo o “Gildo” (assim se chamava o carro da família) em tardes e noites de sábado e cantando Frank Sinatra, Tony Bennet ou marchinhas de Carnaval do tempo do onça (a minha preferida era sobre a mulher do leiteiro; ela “sofria, passava, controlava a freguesia e ainda lavava garrafa vazia”); Tio Pedro nos ciceroneando pacientemente nas quermesses do colégio. Sempre sério – mas sempre cúmplice e compreensivo. Acho que, por meio da gente, ele revivia e reinventava sua infância. E só muitos anos depois, soube os motivos.

Também teve o dia em que fiz Tio Pedro pular da cadeira presenteando-o com um livro de mulher pelada com uma carga explosiva dentro – BUM! (cortesia da “Casa das Mágicas”, loja no centro da cidade que vendia essas bugigangas de gosto duvidoso a qualquer pivete com Dez Cruzeiros no bolso). E nunca esqueci seu método peculiar para me advertir sobre os malefícios do cigarro: com sutileza mastodôntica, ele punha à minha frente um peso de papel com os líricos dizeres: “Fume Longe de Mim; Morra Sozinho”. E ia tomar um suco.

Grosseiro pacas. Mas engraçado.

* * *

Não é da boca pra fora que digo: a gente nunca perde realmente um pai. Sei disso por experiência própria.

Nós seguimos em frente, mas os levamos conosco.

Absorvemos suas qualidades e defeitos e nos tornamos a continuação do que eles eram. O filho se torna o pai e o desafio, talvez, seja excluir o que havia de menos virtuoso neles (porque sempre há algo menos virtuoso) e guardar o suprassumo do que fizeram, sentiram e pensaram.

Estas são as sementes que eles nos deixam. E nossa tarefa – simples, afinal – é semear o caminho com elas. Se não o nosso próprio caminho, o de quem virá: um filho, um agregado, um aluno ou um aprendiz.

Podemos ser pais de muitas maneiras nessa vida. Porque sempre há alguém querendo aprender.

* * *

E Tio Pedro lhe deixou um punhado de boas sementes, Fabião.

Soube, em anos recentes, que ele não teve uma infância feliz. Ao contrário: foi terrível.

Ele poderia ter se tornado um escroque, poderia ter escolhido devolver ao mundo todo o mal que lhe fizeram. Mas optou por algo diferente: entre acertos e tropeços, à sua maneira imperfeita, ele foi o mais carinhoso dos pais. E aqui está você: o mais carinhoso dos filhos.

É duro olhar o campo à frente e encontrar disposição para semeá-lo – ainda mais, quando se acabou de perder a sombra da árvore que, até então, oferecia refúgio contra o vento, a chuva e o sol. Mas você tem à mão sementes muito boas. Espalhe-as por aí, fertilize-as e veja o que acontece: garanto que muita gente vai se beneficiar desses frutos.

Assim que o inverno passar.

Assim que este campo estiver apinhado de vida, outra vez.

Boa colheita, rapaz.




quinta-feira, 6 de junho de 2013

Crônica - Os nerds e a "Deep Web"



PISTOLEIROS SOLITÁRIOS




No meio do meu caminho tem um nerd. Tem um nerd no meio do meu caminho.

Preciso dele pra postar notícias e notas nos sites das revistas em que trabalho. E isto lhe dá um certo poder sobre mim.

Na vida de minhas retinas fatigadas, nunca me esquecerei que, no meio do meu caminho, tem um nerd.

(...)

Foi mal, Drummond.

* * *

Preciso do nerd porque não saco nada de Internet. Quer dizer, sei postar asneiras no “Facebook”, sei tirar meus e-mails, sei navegar em sites de sacanagem. Mas não conheço extensões de formatos, não sei diferenciar um JPEG de um GIF, não sei qual é a macumba pra se fazer um upload muito complicado. No jogo da informática, estou sempre no banco.

E foi por isso que me deram um nerd de estimação. Ele é a minha ponte para o mundo virtual. Ele é o Robin.

E eu sou o Eduardo, mesmo.

* * *

O nerd simpatiza comigo porque gosto de cinema e (ai de mim!) aprecio de montão aqueles gêneros em que todo nerd “pira”: terror, suspense, ficção, filme de pancadaria.

Mas o nerd não entende que também gosto de comédia romântica. De Gaudi. De filme brasileiro. De comer churros em manhã de domingo. De Woody Allen. De ler as tirinhas do Calvin. De Russ Meyer e de Tinto Brass. De abusar do vinho, de vez em quando. De Jerry Lewis e dos Três Patetas. De namorar em sábado chuvoso. De western italiano. De decotões e de mulher que deixa rastro de perfume. De “Entre Tapas e Beijos” e da novela “Renascer”. De sentar em mesa de boteco com um monte de pinguços e rir e rir e rir.

O nerd é brilhante. Mas tem coisas que o nerd não entende.

* * *

Na via contrária, também não entendo o nerd.

Veja só: ele, agora, anda fascinado com uma coisa chamada “Deep Web” – que, em suas palavras – pausa dramática, o clarão de um relâmpago no céu, Kabooom! –, é “o lado negro da Internet”.

OH!

* * *

O nerd acha que, por eu ser um quarentão e estar meio passado (ao contrário dele, que está na flor da idade), não tem como eu perceber a relevância dessa incrível descoberta. Ele se esquece que eu estava lá – que passei pelas BBS, pelas primeiras formatações de disquete, pela pré-história da informática – enquanto ele ainda mamava no peito. Ou alimentava o seu primeiro Tamagoshi. Ou assistia aos Teletubbies. Sei lá.

Pode até ser que, na “Deep Web”, estejam disponíveis as respostas para todos os enigmas da humanidade, incluindo a cura do câncer, a concepção do Supla (considere que ele nasceu de uma relação sexual entre Eduardo e Marta Suplicy e, como eu, admire-se!) e a verdadeira idade da Susana Vieira.

Mas, do jeito que ele me apresenta a coisa, tudo me parece ser uma grande bobagem, mesmo. Notei o mesmo entusiasmo febril nos olhos de pessoas que acreditavam no E.T. Bilu (“Buuuusquem conhecimeeeento!”), na inocência do Lula e na genialidade de Mallu Magalhães.

* * *

Mas, OK: o nerd me desencorajou a ir fundo nesse assunto, segundo ele, “para o meu próprio bem”. É ele quem me adverte: “não entre nesse submundo.” E eu acho que nem poderia, mesmo, pois, segundo o nerd, nem o Google acessa as páginas negras da “Deep Web”. Onde, presumo, existem chocantes imagens de estupro, de crianças sendo molestadas, de rituais satânicos, receitas de canibalismo e a fórmula da bomba de Cobalto (que, segundo os nerds dos anos 70, poderia ter acabado com a vida na Terra).

Digo ao nerd que não tenho o menor interesse em ver essas coisas e ele revira os olhos, condescendente.

Ih, que burro, dá nota zero pra mim!

* * *

Quando vejo essas pessoas, me lembro dos Pistoleiros Solitários, daquela série “Arquivo X”. Eles moravam em um trailer, passavam as noites entrando em sites do governo e, claro, não comiam ninguém. Mas aquilo era televisão e, nessas circunstâncias, eles podiam ser heróis.

Penso em dizer ao meu nerd, qualquer dia, que a “Deep Web” não existe – e mesmo se existir, pra que chafurdar ainda mais na baixeza humana, se expor a conteúdos que só depõem contra o nosso status de seres pensantes? Pra que piorar o que virtualmente não pode ser piorado?

Nerd do “tio”: brinque, fantasie, sonhe em ser Bond, Jack Bauer ou os heróis de “Game of Thrones”, porque isto é um escape legítimo e faz bem à pele e ao coração. Mas não se acostume tanto com este teclado a ponto de perder a sensibilidade do toque.

* * *

O tempo voa mais rápido que um daqueles caças da “Guerra nas Estrelas”. E a vida, na companhia de gente legal – e quando se faz coisas legais – pode ser tão “super” quanto o é na TV ou em uma tela de cinema.

Out there, brother.

The truth is out there.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Crônica - Music and Me



"PLAY IT AGAIN, GOD!"





A vida da gente tem trilha sonora, e isto é bom. O que não é bom é que só conhecemos a trilha sonora de nossa vida quando é tarde demais. Estamos aqui para viver papéis – quem dirige o filme (e ataca de DJ) é o Sr.Acaso, a Lei das Probabilidades ou Deus. Se é que existe Deus.

Antes fosse diferente: se tivéssemos o roteiro em mãos (ou, em uma metáfora mais adequada, a playlist do show), não sairíamos por aí torcendo o nariz para qualquer música. Não rejeitaríamos gêneros ou artistas. Talvez fôssemos melhores ouvintes do que costumamos ser.

E nunca, jamais julgaríamos.

Vai que... Né?

* * *

Lá para frente, esta ou aquela música “cafona” talvez venha a nos representar, torne-se a síntese de momentos importantes, adquira um significado análogo a uma parte de nossa história. Não existe unanimidade e aposto meu fígado (que está em bom estado, ao contrário do pulmão) que, em 1792, houve quem achasse a Marselhesa um tremendo abacaxi. Quem poderia saber, na época, que ela representaria a Revolução Francesa para sempre? E tão bem?

Veja o Humphrey Bogart naquele filme, “Casablanca”: ele odiava “As Time Goes By”, mas só porque a música estava inexoravelmente ligada ao seu destino.

* * *

Assistindo a um trecho de uma nova série da TV Globo – "Pé na Cova", com Miguel Falabella – tive um revival imediato do Terceiro Grau ao escutar, pela primeira vez em 20 anos (ou mais), “Let the River Run”, uma canção melosa do início dos anos 90. Eu a conhecia bem – lera a bula do “xarope” muito tempo atrás. Naquela época, a música foi tema de um filme com Sigourney Weaver (“Uma Secretária de Futuro”), que eu não assisti, mas que ganhou um Oscar e teve notoriedade suficiente para se fazer notar. O refrão era assim:

“Let the river run,
let all the dreamers
wake the nation
Come, the New Jerusalem”

Eu deveria ter gostado, então, pois era uma música de Carly Simon – que, como qualquer cinéfilo medianamente letrado sabe, também interpretou um dos temas mais famosos da série 007, “Nobody Does it Better” (do filme “O Espião que me Amava”). Mas naquele tempo, não gostei. Ouvia a música ad nauseam no rádio do carro do meu irmão, indo para a faculdade, todas as noites. "Let the River Run" ganhou a "cara" da época. E aquela, para mim, foi uma época cinza. Não uma época negra, veja bem– mas cinza.

* * *

Por que, então, meu coração bateu forte quando a escutei novamente, duas décadas depois, algumas horas atrás, displicentemente deitado no sofá do meu apartamento? Ora – porque, a essas alturas, devo estar na metade do livro que conta a minha história. E consigo colocar quase tudo em perspectiva, até aqueles primeiros e claudicantes capítulos.

Qualquer boa história parte de um prólogo sem contexto; qualquer boa narrativa tem momentos insossos; e até a melhor das canções tem uma estrofe da qual ninguém se lembra direito... Porém, excluí-las da obra final é descontextualizá-la, é arruiná-la dramaticamente. Até a estrofe ou capítulo mais recalcitrante tem relevância na trajetória que conduz ao clímax.

* * *

Então, “Let the River the Run” talvez seja uma boa metáfora do que foi ser jovem, para mim. Como aquela música apoteótica (e um pouco cafona, sim), que não fui capaz de apreciar na época, ter vinte e poucos anos é uma dádiva ingrata. Não existe tempo mais lírico e cheio de sabores do que este. Não se experimenta mais emoção, antes ou depois. Jamais se viverá tão perigosa ou ardentemente. O que sobrevém a este período costuma ser melhor (se você der sorte), mas dificilmente será tão memorável.

Infelizmente, a regra é que, na juventude, estamos tão confusos e preocupados em nos destacar que não reparamos nas nuances e na beleza simples de uma composição. Queremos ser relevantes, temos sede de sermos críticos e caímos em uma armadilha – vemos apenas o que achamos que deveríamos ver; o que achamos que seria inteligente ver. Não notamos, sequer, que o cinza é uma ilusão de óptica; que o cinza, a rigor, não existe. É um logro, um amálgama de brancos e de pretos, de luz e de sombras. No entanto, é outra regra que só percebemos isto quando ficamos maduros. Assim, não há muito a se fazer.

Exceto, claro, tirar vantagem do mundo randômico onde vivemos, no qual o passado e o presente se conectam a um clique do mouse.

* * *

Baixei “Let the River Run” na Internet.

Amanhã, vou escutá-la no som do carro.

Desta vez, sem medo de ser feliz.

P.S.: Eu queria registrar que esta série, “Pé na Cova”, é um horror. Mas, claro, esta é só a minha opinião no momento. Nem imagino o que vou achar amanhã.




quinta-feira, 16 de maio de 2013

Crônica - Churrascarias



"CORAÇÃOZINHO, SENHOR?"




Churrascaria é o que há, meu amigo.

Muitos preferem Sushi e Sashimi a uma sangrenta peça de picanha (e o Dr. Drauzio Varella deve estar orgulhoso desse pessoal). Mas acredito que 65% dos humanos ainda se recusam a comer em restaurantes japoneses, aqueles locais onde a comida é servida fria e os guardanapos são servidos quentes.

O tempo e a experiência transformam qualquer autêntico carnívoro em um connaisseur desses ambientes. Porque os rodízios podem ser categorizados como tudo o mais nessa vida – inclua-se aí os uísques, charutos e até os refrigerantes. O Fogo de Chão, por exemplo, é a Coca-Cola das churrascarias. O Picanha de Ouro, na Avenida Dr. Ricardo Jafet (zona sul de São Paulo), é o Guaraná Dolly da categoria.

* * *

Carnívoros sabem que uma churrascaria falhou em seu objetivo primordial quando, uma vez lá, se veem entre mulheres, crianças e idosos na fila do bufê de saladas. Porque salada – e isto não é nenhum segredo – não é propriamente comida; é o que a comida come.

* * *

No Picanha de Ouro, as carnes são tão ruins, mas tão ruins, que o bufê de saladas é um must.

De repente, você se vê usando a força e o tamanho para impedir que uma mulher consiga o rabanete mais polpudo ou a folha de rúcula mais verdinha do balcão.

É vexatório, mas é a luta pela sobrevivência: um homem não pode ser responsabilizado pelo que faz em uma churrascaria como a “Picanha de Ouro”, onde sempre existe o risco de a costela ou da fraldinha mugirem e pularem da mesa escoiceando, ao serem cutucadas por um garfo. Porque estabelecimentos como a “Picanha de Ouro” não entendem a sutileza do termo “mal-passado”.

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Outra curiosidade sobre as churrascarias é que elas têm um tácito código hierárquico. É, sim: igualzinho aos daquelas sociedades secretas (Rosa Cruz, Maçonaria, Pró-Vida, Hogwarts...).

Sentado à mesa, vendo as carnes passarem e assistindo ao Vídeo Show em uma TV de Plasma fixada à parede, o cliente nem imagina que um código primal de organização rege aquele estabelecimento. As regras foram definidas muito tempo atrás, quando ainda usávamos roupas de peles e caçávamos mamutes nas pradarias.

Nos rodízios de carnes, esta hierarquia começa no “coraçãozinho”.

* * *

Não há o que discutir: o pobre diabo a quem confiam o “coraçãozinho” (de galinha ou de frango, ninguém sabe ao certo) é um neófito, um iniciante, um GV (“garçom virgem”). O elo mais fraco da corrente.

Comiserado, magrinho, ele se esgueira pelo salão e amarga a mais inglória das tarefas: oferecer “coraçãozinho” a machos esfomeados que, por volta das 13h30, salivam pavlovianamente à simples menção da palavra “picanha”.

* * *

"Coraçãozinho, senhor?" 

Silêncio sepulcral na mesa. Alguém esbarra em um copo, que quase cai.

Caberá ao macho mais sensível do grupo (sempre existe um) acabar com aquele constrangimento, dando um tapinha amistoso na mão do rapaz e o libertando daquele pesadelo:

“Vamos esperar pela próxima, obrigado.”


* * *

Mas um lampejo de esperança ilumina a alma de nosso herói, tão logo lhe confiam o primeiro espeto de linguiça temperada.

Veja bem – não é assim uma Brastemp. Mas a linguiça temperada prova algo importante: o problema não era ele, afinal... Era o coraçãozinho.

Agora, ele se sente aceito e querido. Um dia, poderá ser o maioral do pedaço. Usando bombachas e com um lenço no pescoço – facão em uma mão e espeto na outra –, manobrará cortes de picanha entre as mesas e será olhado com inveja pelos colegas. A clientela disputará sua atenção. As mulheres lhe dirigirão sorrisos enigmáticos.

* * *

Foi uma batalha dura, seu orgulho ficou ferido, mas ele perseverou e venceu. Recobrou o respeito próprio. Sobreviveu ao teste do coraçãozinho.

Nas churrascarias, tanto quanto no tempo dos Neandertais, é isto o que separa os meninos dos homens.


terça-feira, 14 de maio de 2013

Quadrinhos - Entrevista / Maurício de Sousa



O PAI DA MÔNICA




Artista, cronista, empresário, pioneiro. Todas essas definições se aplicam a Maurício de Sousa, um personagem e tanto que, nos anos 60, começou a desbravar o mercado de quadrinhos nacional. Suas criações atravessaram décadas (seja na forma dos tradicionais gibis, seja por meio de filmes, parques temáticos e projetos para a Internet) e se inscreveram em nossa Cultura Pop. O mundo fictício onde vivem a Mônica, o Cebolinha, o Cascão e o Anjinho é conhecido por todos (e se tornou parte de nossa memória afetiva).

Nesta entrevista a “Zoom Magazine” (publicada na edição 64 da revista), Maurício contou que seu interesse por arte se manifestou aos nove anos de idade (quando ele ganhou um kit de desenho do pai) e que, antes de ser cartunista, exerceu a profissão de repórter policial (dá pra imaginar?). Também deixou claro que, hoje, sua faceta artística precisa conviver com a de homem de negócios. Com a palavra, o “pai” da Mônica.

QUANDO O SENHOR COMEÇOU A PRODUZIR TIRAS, O MERCADO DE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS PRATICAMENTE SE RESUMIA À DISNEY. FOI DIFÍCIL QUEBRAR ESTE MONOPÓLIO?
No início dos anos 60, a Disney tinha presença pesada e quase exclusiva nas bancas. Experiências de desenhistas brasileiros, realizadas nos anos 50, não tinham vingado. Não só por motivos econômicos, mas porque, durante aquele período, desenvolveu-se uma campanha feroz contra as histórias em quadrinhos no país. Na época, eu já tinha um ano de publicação de tiras diárias na “Folha da Manhã” – hoje, “Folha de São Paulo”. Na mesma década, aceitei um convite da editora Outubro para lançar uma revista mensal chamada “Bidu”, que só chegou à sexta edição. Eu não tinha estrutura para escrever, desenhar e arte-finalizar uma revista por mês – sendo, ainda, repórter policial nas horas normais do dia. Enfim, as tiras de jornal começavam a fazer bonito, mas ainda rendiam pouco quando publicadas em um só jornal.

E QUANDO O NEGÓCIO COMEÇOU A DAR CERTO?
Quando passei à fase seguinte do meu plano de expansão: criei um sistema de redistribuição que permitia que a tira publicada na “Folha” também fosse publicada em jornais de outras capitais ou em grandes cidades do interior. Ao mesmo tempo, iniciei a contratação de artistas para compor uma equipe que me permitiria aumentar e diversificar a produção. E, durante a década de 60 inteirinha, trabalhei com jornais de todo o país, oferecendo tiras diárias e páginas tabloides para suplementos semanais. Chegamos a atingir mais de 300 jornais durante aquele período, vencendo, assim, diversas barreiras que impediam os personagens brasileiros de serem aceitos por jornais e pelo público diferenciado de quase todos os estados do país. A simpatia dos personagens, o jeito de se comunicarem, o cuidado com os temas, com o conteúdo e com a arte ajudaram nesta receptividade.

A MÔNICA FOI INSPIRADA EM UMA DE SUAS FILHAS. E O CASCÃO? E O CEBOLINHA?
Eu não inventei nada – só observei e coloquei, nos personagens, características de seus “inspiradores”. Todo mundo conhece uma Mônica, uma Magali, um Cascão ou um cachorrinho parecido com o Bidu. Os personagens que fui criando nos primeiros cinco anos baseavam-se em observações. O Cebolinha era um garoto que andava perto da minha casa durante minha infância. Foi meu pai quem lhe deu esse nome, por causa do cabelo espetado. Ele era amigo do Cascão, que também existiu e inspirou o personagem; Franjinha era um sobrinho meu, que morava em Bauru; Chico Bento era um tio-avô que não cheguei a conhecer, mas cujas histórias me foram contadas por minha avó. A maioria dos personagens foi baseada em gente que existiu. No caso das meninas, fui para casa e comecei a prestar atenção em minhas filhas. E lá estava a Mariângela, minha primeira filha, brincando com a Mônica, que arrastava um coelho pela casa tentando bater na Magali, que comia uma melancia inteira. Assim, criei os personagens baseados nas meninas, fiz uma caricatura psicológica e deu certo. Primeiro foi a Mônica, depois a Magali; a Mariângela virou a Maria Cebolinha.

QUAIS ERAM SUAS REFERÊNCIAS EM TERMOS DE TRAÇO?
Em termos de desenho, levo muita coisa do velho Brucutu (um homenzinho pré-histórico), do Ferdinando (um caipira americano), de Tereré (uma sátira ao Príncipe Valente) e da Luluzinha e do Bolinha. Em termos de narrativa, tenho muito do Ferdinando (Al Capp), do Brucutu e do Gordo, um personagem criado por Gustavo Arriolla, mexicano radicado nos EUA. Mas onde vou buscar, até hoje, a liberdade e ousadia para criar é no estilo e na narrativa de Will Eisner, com o personagem “Espírito” (Spirit). E mais recentemente, em suas sensacionais graphic novels.

ALÉM DOS PERSONAGENS DA TURMA, OUTROS FORAM ADICIONADOS AOS GIBIS – O PELEZINHO E, DEPOIS, A MENINA DORINHA, QUE ERA CEGA. O QUE DETERMINA O SURGIMENTO DESSES PERSONAGENS? FAMA? CONSCIÊNCIA SOCIAL?
Sempre há novos personagens querendo “pular” da prancheta. Mas não podemos dar toda a atenção que merecem. Por isso, temos que ir dosando os lançamentos. Mas o tempo chega para alguns, que vão se revelando. Às vezes, por necessidade de falarmos coisas diferentes, de temas novos, de novas propostas. Não tanto por necessidade (em nosso caso) de renovação. Os personagens clássicos da turma estão fortes como nunca. Mas o artista é um insatisfeito por natureza.

NO CINEMA, O SENHOR TAMBÉM FOI PIONEIRO. COMEÇOU A PRODUZIR LONGAS DE ANIMAÇÃO QUANDO NINGUÉM INVESTIA NESSAS PRODUÇÕES. O MERCADO MELHOROU, DE LÁ PARA CÁ?
O mercado melhorou e aumentou. Além disso, há facilidades que eu não tinha na década de 1980, quando lancei meus primeiros filmes. Há bilheterias honestas, computadores, incentivos e um público ávido por nossos produtos.

E NO QUE DIZ RESPEITO À TV? O PANORAMA É OTIMISTA?
O panorama é otimista, mas as séries ou programas ainda são difíceis de fazer. Custam caro e precisamos resolver o problema da redistribuição, para que os investimentos necessários sejam cobertos. Mais ou menos como quando precisei criar a redistribuidora de tiras de jornal. Só que, agora, a redistribuição terá que ser para veículos de comunicação de outros países. A estratégia e a infraestrutura necessárias para isto são mais complicadas. Mas não impossíveis...

RETROSPECTIVAMENTE, O SENHOR CHEGOU A ACREDITAR, NO INÍCIO DA CARREIRA, QUE SEUS PERSONAGENS TERIAM TANTA LONGEVIDADE?
Como artista, não pensava assim, no início. Mas, como empresário, responsável por um complexo de produção de histórias em quadrinhos, filmes, livros e parques temáticos, tenho que pensar na manutenção, na perinização da organização. Até por respeito aos nossos leitores, que se acostumaram e gostam do que produzimos. E por respeito aos que trabalham comigo.

QUAIS FORAM AS EVOLUÇÕES OCORRIDAS NO SEGMENTO DE ANIMAÇÃO NOS ÚLTIMOS ANOS? AS FERRAMENTAS DIGITAIS FACILITARAM O PROCESSO?
O processo digital, sem dúvida, revolucionou o setor. Os resultados são sensacionais. Mas, em termos de custo, a coisa fica mais ou menos empatada.

O PAPEL FOI DEFINITIVAMENTE ABOLIDO NESSES TEMPOS DE CRIAÇÃO DIGITAL? OU, DE VEZ EM QUANDO, AINDA É PRECISO VOLTAR À PRANCHETA?
O papel é eterno. Pelo menos, até descobrirem algo tão sensacional. Desenhar “no vácuo” não é a mesma coisa.

Artigo originalmente publicado em "ZOOM MAGAZINE", em fevereiro de 2005


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Cinema - Entrevista / Zé do Caixão



ZÉ DO CAIXÃO (POR ELE MESMO)




Gênio ou maluco? Visionário ou impostor? Eu também estava na dúvida quando entrevistei José Mojica Marins para a "Zoom Magazine", na época do lançamento de Encarnação do Demônio (em agosto de 2008). Zé do Caixão foi um personagem icônico da minha infância. De lá para cá, se tornou (a um só tempo) uma referência “cult” e um ícone da breguice.

Antes de apedrejar o Zé, é preciso reconhecer que seus primeiros filmes (os quais muita gente NÃO VIU) são sensacionais (inclusive tecnicamente), apesar de Mojica jamais ter tido uma educação formal em cinema (para mais informações, leia o excelente “Maldito”, de André Barcinski e Ivan Finotti). Se ele banalizou seu famoso personagem desde então (por exemplo, transformando-o em host do extinto “Cine Trash”, apresentado pela TV Bandeirantes há alguns anos), isto se deveu à escassez de ofertas e de verbas para voltar a filmar.

O resto está aí, ó:
           
ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO FOI ACLAMADO NO FESTIVAL PAULÍNIA DE CINEMA. FINALMENTE, O SENHOR SE TORNOU (POSITIVAMENTE) UMA UNANIMIDADE DE CRÍTICA.
Você viu? Ganhei sete prêmios, inclusive, os de Filme e Fotografia. Não esperava por isso. Foram os “jovens” de quarenta anos que me defenderam lá. Meu produtor, Paulo Sacramento, tem 33 anos e muitos críticos que gostam dos meus filmes estão nessa faixa, de 30 a 40 anos. Quantos anos você tem?

TRINTA E OITO.

Então, é o que eu disse. Os críticos de hoje entendem os meus filmes.

ISTO NÃO SE DEVE AO FATO DE O SENHOR TER COMEÇADO A FAZER FILMES DE TERROR QUANDO ESTE GÊNERO SEQUER EXISTIA NO BRASIL?
Nos anos 60 e 70, sofri muita perseguição de caras que (descobri depois) tinham feito curso de cinema, mas cujos projetos estavam engavetados. Enquanto isto, eu – que nunca estudei cinema e que me criei nos fundos de um cinema –, conseguia fazer e lançar meus filmes. Até montei uma escola de cinema no Brasil. 

O LEGAL DESTE NOVO FILME É QUE, APESAR DOS RECURSOS TÉCNICOS, ENCARNAÇÃO TEM A SUA CARA. NÃO É UM FILME METIDO A BESTA.
A luta era esta! Quando Paulo Sacramento e o roteirista Dennison Ramalho me procuraram, queriam exatamente isso. Os dois são fãs das minhas fitas e queriam que eu mantivesse as características do Zé do Caixão. Mas o personagem nunca saiu da minha cabeça. No filme novo, é o mesmo personagem, só que mais violento e envelhecido. É preciso ter em mente que o mundo também está mais violento.

O RÓTULO DE “DIRETOR TRASH” O INCOMODA?
Isto é o que me revolta no Brasil. Lá fora, ninguém diz que minhas fitas são trash. Mas há jornalistas, principalmente mulheres, que volta e meia me chamam de “Rei do Trash”. Eu não gosto disso. Apresentei filmes trash na TV Bandeirantes durante uma época, mas isto não significa que faço filmes trash. Se eu fizer uma fita sobre um problema social, por ser eu, logo vão dizer que o filme é trash. Enquanto isso, os americanos enaltecem o meu trabalho. Ontem, dei uma entrevista de três horas para a “Fangoria”, a maior revista especializada em filmes de terror dos EUA. Mas, aqui, insistem nessa história de trash. Um dia vou pegar esses caras e perguntar se eles sabem o que significa trash...

E POR QUE ESTA OBSESSÃO POR TERROR, HEIM?
Quando eu era criança, vi uma cena que nunca esqueci: o cara que vendia batatas lá no meu bairro faleceu. Eu e outros três garotos fomos ao velório. A esposa do defunto se debruçava sobre o caixão e gritava: “Por quê?! Por quê?! Por que eu não fui no seu lugar?” Os filhos do morto me disseram que devíamos rezar para que ele voltasse à vida e achei aquilo legal. De repente, o homem mexeu a mão e todo mundo correu para a calçada. O defunto se sentou no caixão e queria saber onde estava, o que tinha acontecido... O cara era cataléptico. Resultado: ele voltou da morte, mas ninguém nunca mais comprou batatas na quitanda dele...

SÉRIO?
Sério. A esposa pediu o divórcio e o cara enlouqueceu, foi parar em um manicômio. Foi aí que comecei a me interessar pelo que existia depois da morte – assim surgiu o meu interesse por assuntos macabros. Mas só depois que fiz meus filmes descobri que existiam o Boris Karloff, o Lon Chaney, todos aqueles atores famosos de filmes de terror. Eu nem tinha ideia das comparações que faziam entre os meus filmes e aquelas produções. Quando finalmente pude assisti-las, gostei muito. Inclusive, tenho um anel que ganhei da filha do Boris Karloff, sabia?

O CURIOSO É QUE O ZÉ DO CAIXÃO É UM CARA CÉPTICO. NÃO ACREDITA EM DEUS E NEM NO DIABO...
Já me disseram que isto é contraditório, mas eu discordo. O que acontece é que o personagem exerce um domínio psicológico sobre os outros, que são suscetíveis a essas crendices – pragas, essas coisas. Zé utiliza este artifício a seu favor.

OUTRA COISA SOBRE O ZÉ DO CAIXÃO É QUE ELE NÃO É BEM UM “CAVALHEIRO”... ELE TORTURA E MALTRATA AS MULHERES. ALGUMA FEMINISTA JÁ QUIS TOCAR FOGO NO SEU CARRO POR CAUSA DISSO?
Ainda não, mas acho que, depois deste novo filme, vou ter problemas com elas. Mas tem uma coisa: o Zé é machista, faz de tudo com as mulheres, mas elas levam a melhor sobre ele. Afinal, o Zé precisa delas para ter o raio do “filho perfeito”.. Depois que ele encontrar a mulher certa, até dará a vida por ela.

EM ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, VOCÊ REFEZ UMA CENA DE ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER QUE TINHA SIDO CENSURADA NOS ANOS 60...
Na época, eles me obrigaram a mudar tudo. No desfecho da fita, em 30 segundos, Zé se convertia e aceitava a cruz. A cena terminava até com música sacra! Mas, neste filme, refiz a cena como a imaginei nos anos 60. Ele não se converte e até mata o padre com a cruz. O dublê que faz o Zé do Caixão “jovem” em Encarnação é um dos meus fãs nos EUA. Ele veio ao Brasil por conta própria, só para aparecer no filme.

É ENGRAÇADA A PERSEGUIÇÃO AO ZÉ DO CAIXÃO, PORQUE SEU PERSONAGEM MAIS BLASFEMO É FINNIS HOMINIS, UM LOUCO QUE FOGE DO HOSPÍCIO E SE TORNA UM MESSIAS PARA O POVO IGNORANTE.
O Finnis é um louco inconsciente, enquanto o Zé do Caixão é um louco consciente. Quem queria ver esses dois personagens juntos em um mesmo filme era o Glauber Rocha. Eu tenho um roteiro que promove a união dos dois. Quem sabe não fazemos este filme, futuramente? Aliás, considero Finnis Hominis o meu melhor filme.

E O PROJETO DE O DEVORADOR DE OLHOS? HÁ CHANCES DE O FILME SER PRODUZIDO EM BREVE?
Vamos ver o que acontece. Se Encarnação do Demônio for um sucesso, faremos uma continuação, Sete Ventres Para um Demônio.O Devorador de Olhos tem um personagem ainda mais sádico que o Zé. Ele sofre de uma doença que o faz arrancar os olhos de mulheres. Às vezes, com saca-rolhas. É bem violento.

VOCÊ ASSISTE A FILMES DE TERROR?
Não. Meus filhos, às vezes, me falam de alguns filmes, mas não assisto para não dizerem que estou sendo influenciado. Até compararam Encarnação com Jogos Mortais. Mas eu nunca assisti a Jogos Mortais.

QUAL É O SEU FILME DE TERROR PREDILETO?
O Bebê de Rosemary. É uma fita assustadora, sobre uma coisa que pode acontecer. Nunca mais Roman Polanski conseguiu fazer um suspense tão perfeito! Quem sabe, Encarnação do Demônio não incentiva outros diretores do Brasil e da América Latina a realizarem mais fitas do gênero?

VOCÊ PASSOU POR TODAS AS FASES DO CINEMA NACIONAL. EM QUAL DELAS O ZÉ DO CAIXÃO ROGARIA UMA PRAGA?
Cada fase teve suas dificuldades. No passado, se eu não tivesse feito A Sina do Aventureiro, financiado por um sistema de cotas, o cinema talvez tivesse morrido. A Vera Cruz quebrou e, com isso, também a proposta de um cinema industrial. Mas aquele não era o fim. O sistema de cotas foi utilizado por mim, por (Carlos) Reichenbach e por (Rogério) Sganzerla. Depois, passei pelo cinema de sexo explícito pra sobreviver. E agora vivemos “a grande época”. Se bem que é preciso repensar algumas coisas: toda a verba disponível para o cinema, no Brasil, sai para a turma do Rio de Janeiro, o pessoal “Global”. Espero ganhar força com Encarnação, para juntar um grupo de representantes de vários estados e ir falar diretamente com o Lula. Também acho que é preciso um júri para definir a destinação desta verba. Pessoas com talento e histórico, já aposentadas, poderiam compor o júri. E também é importante que os diretores façam filmes para o povo, não para ganhar prêmios. Se ganhei aqueles prêmios em Paulínia, é porque fizemos um belo trabalho. Mas a minha alegria é o povo assistir aos meus filmes e gostar deles.

NÓS, DA REVISTA “ZOOM MAGAZINE”, LHE ROGAMOS UMA PRAGA: QUE ENCARNAÇÃO FAÇA MUITO SUCESSO.
Muito obrigado! Fiquem com Deus.

Artigo originalmente publicado em "ZOOM MAGAZINE", em agosto de 2008



quinta-feira, 9 de maio de 2013

Crônica - Comportamento / Barracos Urbanos



A INVASÃO




Cidadão!

Este é um pronunciamento público e diz respeito a você e a seus familiares.

Não troque de canal, não mude de estação, não desligue o telefone.

Esta frequência é segura, mas estamos sob ocupação já há uma década e, a essas alturas, o inimigo penetrou em nossas trincheiras, se instalou no governo e monopolizou as comunicações.

Agora mesmo, existe o risco desta mensagem ser interceptada...

... ser interceptada...

... ser interceptada...

Aaaaaaaaah... Lelek lek lek lek lek lek lek lek lek lek!

“Esse é o novo passinho / pra geral se amarrar /
Ele é muito maneiro / qualquer um pode mandar!”


* * *

Esqueça os zumbis e os vampiros, meu filho.

O apocalipse bateu à nossa porta, sim, mas não foi do jeito que Hollywood previu. O ano 2000 passou batido por nós e saímos comemorando cedo a catástrofe que nunca aconteceu.

Olha aí: assinamos atestado de otários.

Ligue o rádio, agora mesmo. Veja os modos do seu vizinho. Olha o que está passando na TV. Converse com um professor da rede pública sobre o universo e as perspectivas de seus alunos, peça licença e vá se sentar na calçada. Chore.

Foram os boçais, meu chapa.

Os boçais é que dominaram o mundo.

* * *

Outro dia, eu e a rapaziada da redação fizemos um happy hour no Bar da Imprensa, botequinho familiar e bem ajeitado das redondezas. Sem aviso prévio, o invasor chegou: eram vários. Tomaram conta de uma mesa ao lado, sacaram seus celulares (“Fazer ‘fotinha’! Fazer ‘fotinha’!”), largaram as blusas e as bolsas no chão e o Armaggedon ficou solto.

Ou já estavam bêbados ou tomaram umas e outras via “intravenosa”. Porque, em poucos instantes, todo mundo já estava pra lá de Bagdá. No modo “dançar-sensualizar-destruir”, a mulherada do grupo (nada que se salvasse ali, garanto) começou a se expandir pelo recinto feito massa de pão, usando o seu espaço e os dos outros. Dançaram na calçada – chique! – e o inevitável aconteceu: uma delas, que deveria pesar uns 150 quilos (sem meias e sapatos e em jejum), deu uma bundada nas garrafas e petiscos da mesa, espalhando tudo pelo chão.

“Mano! Põe mais cervêêêêja!”

“Mano! Tira ‘fotinha’!”

“Mano! Que vontade de mijar da porra!”

(Esta era uma das moças).

* * *

A galera do boteco aumentou o tom de voz, pois era impossível qualquer entendimento em meio àquela algazarra. O desconforto piorou quando um dos farofeiros manobrou o carro para a calçada próxima ao bar e PÁ! Ligou a porra do som nas alturas.

A vontade era sair esmurrando, mas um gigante do nosso grupo (meu colega Vitor Giglio, que já jogou rugby e que poderia quebrar suas costelas com um peteleco) manteve a cabeça fria e, com um autocontrole invejável, foi lá parlamentar com eles. A contragosto, os joselitos-sem-noção baixaram a música – pero no mucho. Só reinou a paz, mesmo, quando um garçom veio pedir que o som fosse totalmente desligado, pois os clientes que estavam dentro do restaurante não conseguiam ouvir o show do artista contratado pela casa.

* * *

E é isso.

O cara paga pra tomar um choppinho e ouvir um pouco de MPB e leva um repertório de Funk e de Forró nos ouvidos. Cortesia do babaca-mor da vizinhança, que comprou um kit de som a 400 prestações e (“Câmera em mim! ‘Fotinha’!”) acha que está abafando.

Idiota.

* * *

Que será que aconteceu?

Ainda boto fé no Homem, então, vamos considerar que o joselito-sem-noção (cada vez mais, o protótipo do brasileiro) não tem consciência do que faz... É tudo parte daquela conspiração mencionada lá em cima. Quem sabe, os paraguaios não lançaram algum bacilo ou vírus contagioso e idiotizante em nossa água, transformando o Brasil em uma nação de retardados? Olha, é algo pra gente considerar... Já vi um troço parecido em um filme do George Romero!

Por via das dúvidas, daqui pra frente, vamos observar atentamente os nossos próprios modos em público. Nunca se sabe: nós mesmos podemos já ter bebido a água. Talvez a nossa porção “joselito” esteja incubada e prestes a irromper no mundo. Já pensou?


* * *

Tem que ver isso aí, ó:

SOM: Ninguém precisa escutar o que você gosta de ouvir. Foi pensando nisso que, em 1958, os norte-americanos (ô, raça boa!) inventaram uma coisa chamada “fone de ouvido”, testada e aprovada em países desenvolvidos, mas que já está à venda em qualquer boa loja do ramo do Brasil há um tempão. Experimente: é joia.

FILAS: Tanto quanto a penicilina, elas são um sustentáculo da civilização. Não fure filas. Espere. Pode parecer uma besteira agora, porque você está estressado e não consegue pensar com clareza, mas uma coisa bacana sobre as filas (talvez, a única) é que elas andam. Um passo de cada vez... Devagar... Mas andam.

NEXTEL, SMARTHPHONE E CELULAR: A gente sabe que você está superorgulhoso de si pelo negócio que fechou ontem. A gente também sabe que você ama a Dani, e tudo, mas a real é que ninguém na praça de alimentação, elevador ou banheiro do shopping liga a mínima pra isso. Se o telefone tocar quando você estiver cercado por desconhecidos, baixe a voz para um sussurro e diga: “Dani, gata... Não posso atender agora. Te ligo em dois minutinhos, pode ser? Também te amo, mô.” E daí, atenda a ligação em outro lugar.

ÁLCOOL: Beba, fique alto, toque o terror. Mas não seja idiota. Não é nenhum segredo da CIA que só gente depressiva e fracassada bebe até vomitar. Excesso de euforia pode ser um sinal de que você é um loser – o tipo de informação que é bom guardar pra si, não espalhar pra geral.

FESTA NA RUA: A rua é pública, sim, mas você entendeu tudo errado. O fato de ser pública não significa que a calçada é uma extensão do seu quintal. Quer fazer festa? Faça dentro de casa. Não quer bagunça em casa? Não faça festa. Não sabe respeitar os vizinhos? Alugue uma chácara (de preferência, isolada). Já que a vizinhança não é convidada pra esses barracos que você chama de “festas”, ela não é obrigada a aturar os seus amigos.

LIMITE DE VELOCIDADE 1: Você comprou uma moto que faz 280 km/h? Comprou um carrão turbinado que, quando levado ao limite, rompe a barreira do som? Parabéns! Mas as vias públicas têm limite de velocidade e, no Brasil, são monitoradas com rigidez. Então, é o seguinte: 280 km/h você não vai poder fazer. E pare de colar na traseira do cara da frente! Ele é um cidadão comum, não é filho do Eike Batista (logo, é obrigado a respeitar as leis de trânsito). Por que razão ele deveria andar mais depressa, arriscando-se a levar uma multa? Só pra te fazer feliz? Vá se catar, vacilão.

LIMITE DE VELOCIDADE 2 – A MISSÃO: Supondo que você seja o oposto do babaca aí de cima e goste de passear pela cidade a 20 km/h, mesmo em vias públicas onde a média de velocidade é 60 km/h. Fica a dica: trafegue pela direita. Pra isso serve a direita: pra você tocar o carango tranquilão, ouvindo um CD do Richard Clayderman ou da Enya. Vá na sua, não se apresse – mas também não atrase o próximo. Dependendo do temperamento do “próximo”, a vítima pode ser você.

* * *

E está bom por hoje.

Com jeitinho e com bom-senso, os joselitos não prevalecerão.