quarta-feira, 24 de abril de 2013

Crônica - Festas



LUZES DE NATAL



É um pássaro? É um avião? Não, é a Ponte Estaiada prestes a entrar em órbita



Na semana passada, o assunto aqui na redação eram as luzes de Natal da Avenida Paulista. Este ano, por obra do acaso, eu as vi brilhar – é que fui jantar com uns amigos em uma pizzaria próxima à Consolação e dei de cara com as fachadas resplandecentes do Conjunto Nacional e do Shopping Center 3.

Depois disso, passei a reparar melhor nas avenidas e pontos turísticos da metrópole, devidamente customizadas para as Festas. E percebi, atônito, que há muito tempo não fazia isso. Em termos de design, não andei perdendo nada: a versão “natalina” da Ponte Estaiada é um constrangimento – sem falsa modéstia, acho que eu faria melhor se me dessem uns dez quilômetros de fios e luzinhas e infraestrutura para pendurá-las naqueles cabos de aço.

Em compensação, o “branco” que é a minha lembrança das caras da cidade nos últimos 25 ou 30 natais mostra o quanto me distanciei do lado lúdico das Festas. Foi-se embora a poesia, a inocência, assim como a minha capacidade de me encantar com essa época, que, em outros tempos, costumava ser “a época”.

* * *

Sim. Porque mesmo depois da infância (quando o Natal representava a expectativa de ganhar um boneco “Falcon”, um “Piloto Campeão” ou um robô “Arthur” – comprovadamente o último brinquedo que me deram, em 1982), as Festas foram, por um tempo, um momento divino (com o perdão do trocadilho ordinário) dividido com a família e os amigos. Não vou dizer que pensava no menino Jesus quando atacava uma perna de Peru ou um Chester. Mas o fato de estar alegre e cercado por gente que eu amava tornava-me, por osmose, uma pessoa mais alegre e amável.

O Natal e o Ano Novo eram um tipo de “Copa do Mundo” no que se refere aos eventos familiares – ingressos esgotados, gente sentada no chão. Vinham parentes do interior para cá, só para passar a meia-noite dos dias 24 ou 31 conosco; as distâncias eram menores ou a disposição das pessoas era maior. E também surgiam os amigos, já na alta madrugada, em um tipo de “peregrinação” que tinha muito dos hábitos do interior. Portas sempre abertas, festas regada a comida e bebida, muita música – e lugar para quem chegasse, quando e como chegasse.

Também jogávamos até o dia clarear – velhos, adolescentes e crianças; “Perfil”, “Imagem & Ação”, “Mímica” – independentemente da atração a censura era livre e o quorum, máximo. As pessoas queriam estar perto umas das outras – perto de quem importava; não banalizavam a ocasião brindando com ilustres desconhecidos em um restaurante ou casa noturna. Ria-se, bebia-se, bagunçava-se. E também confraternizava-se.

* * *

Além disso, todos eles estavam ali: meus tios e tias-avós, meu pai, meus amigos de infância. O redemoinho ainda não passara com força, levando alguns para longe e outros para sempre. O que ficou? Nenhum daqueles brinquedos eu tenho mais – minto, o “Arthur” eu ainda tenho. E a alegria, a música e os risos silenciaram. O Natal não é propriamente triste, mas todo aquele contingente desertou e sobraram apenas algumas pessoas; eu as conto nos dedos de uma mão e isso não é uma figura de linguagem. Pessoas que contam, sim – as pessoas que mais contam. Mas é inegável que, em termos de “produção”, o Natal se tornou um filme de baixo orçamento.

Tristeza? Melancolia? Nem pensar: o cinismo é meu companheiro e a ideia que prevalece é a de que, após o dia 25, estarei de férias. Estarei viajando e curtindo, pois a alegria não é um bem sazonal, como querem nos fazer crer as propagandas (e em certa medida, também as luzes de Natal). Rirei por último e rirei melhor.

* * *

Mas talvez – só talvez – eu possa encontrar um lugarzinho na agenda para, nos próximos anos, ir espiar as luzes de Natal na Avenida Paulista, no Jardim São Paulo ou no centro da cidade. Ok, não passam de símbolos, artifícios luminotécnicos para impulsionar o consumo. Mas também são uma tradição cativante que ainda estará de pé muito tempo depois de eu ter partido. Que já estava de pé, é preciso admitir, muito antes de eu chegar aqui.

Não mata ninguém, nem tira pedaço. E de quebra, me faz lembrar de pessoas especiais, momentos que não se repetirão e emoções enferrujadas, que andavam esquecidas no fundo de uma garagem junto com meu velho robô “Arthur”.

Olha só: Papai Noel já tinha me dado um presentão este ano. E eu quase não percebi...

P.S.: O mantenedor deste blog fecha a “lojinha” neste fim de ano, mas retoma a insalubre (mesmo que divertida) tarefa de atualizar (mal e porcamente) o Baú do Edu em 2011. A todos os brothers e sisters que passam por aqui regularmente, um hiperbólico Natal e um épico Ano Novo.



Crônica - Gastronomia



AMORES BRUTOS




O sanduíche de mortadela é uma inspiração em estado bruto. Assim como o biju, que a gente compra no farol. Os dadinhos Dizioli, que são pura (e boa!) gordura hidrogenada. E o sonho de valsa, que um amigo meu já definiu como “o chocolate perfeito”.

Portanto, que ninguém – eu disse ninguém – ouse perverter as qualidades essenciais de um gordo, insalubre sanduíche de mortadela.

E que a mortadela propriamente dita jamais deixe de ser esse obsceno embutido de carnes suínas, bovinas e (dizem as más línguas) jornal picado, pois aí reside seu charme, seu primitivismo fascinante, sua divina originalidade.

* * *

Sim!

O mantenedor deste blog se levanta contra a hipocrisia que contaminou nossas mesas, livros de culinária e até a editoria de saúde do “Fantástico”, cujas reportagens alertam: “Não faça da mortadela uma arma, a vítima pode ser você!”

Vamos gritar: “Morte ao Dr. Bactéria!”

Vamos às ruas, às praças, às seções de frios dos hipermercados! Juntos, marcando o passo e brandindo nossos cartazes e tochas!

Vamos erradicar de vez o preconceito contra o bom e velho “sanduba” de mortadela!

Isso é uma guerra – uma cruzada!

E a única concessão que este movimento revisionista fará aos críticos de plantão será permitir que eles nos corrijam quando “derraparmos” na fonética do termo, pois, aí sim, é preciso dar razão aos caretas:

É “MOR-TA-DE-LA”, sua besta. E não “MOR-TAN-DELA”!

* * *

O leitor pode achar exagerado criar um movimento para a preservação do “sanduba” de mortadela. Ah – mas é porque não sabe o que eu sei!

Estão querendo domesticar o sanduíche de mortadela! Duvida? Então, veja o que achei no site daquele padeiro fashion (e habitué da Revista “Caras”), Olivier Anquier:

RECEITA DE SANDUÍCHE DE MORTADELA COM ABACATE E MAIONESE DE MANJERICÃO

Preparo:

Faça a maionese. Acrescente, em fio, o óleo de girassol, batendo até formar uma emulsão. Acrescente à maionese o manjericão, ligeiramente picado;
• Monte o sanduíche: sobre uma fatia de pão, coloque uma camada de maionese, uma de mortadela, fatias de abacate e rúcula. Passe maionese na outra fatia de pão e feche o sanduíche.

* * *

Rúcula?

Maionese de Manjericão?

Tá doida, bicha?!

* * *

Onde já se viu macular o caráter hardcore de um autêntico “sanduba” de mortadela com esses ridículos periféricos extraídos da terra? Ou das árvores, sei lá...  E o que dizer da horrenda, impura maionese? E o abacate, meu Jesuscristinho, como foi parar nessa equação?

Se isto fosse uma suruba, não uma receita de sanduíche de mortadela, a rúcula, o abacate e a maionese de manjericão seriam a Madre Teresa de Calcutá, o Palhaço Tiririca e a Bruxa de Blair, plantados ao lado da cama enquanto nove casais experimentam, em ordem randômica, todas as posições do Kama Sutra.

Tipo assim, nada a ver.

* * *

Cada vez mais me convenço que tudo isso é um ataque estratégico e maledicente à pureza das coisas; ao nosso encantamento com símbolos que são naturalmente belos, apesar de engordarem pra cacete ou (vá lá!) terem uma gordurinha aqui, outra ali...

O “sanduba” de mortadela é apenas a bola da vez. No passado, aconteceu o mesmo com os biscoitos Cream Cracker. Onde estão aqueles bolachões farinhentos da minha infância, que faziam CRUNCH! a cada dentada e que valiam cada centavo gasto na vendinha da esquina? Eu lhe digo onde estão eles, companheiro: mortos!

Hoje, me contento em ruminar versões pocket dos velhos Cream Cracker; esses micro-biscoitos para donzelas de regime, com nomes tão ridículos quanto pomposos: “Levíssima”, “Folhata” etc.

* * *

O “sanduba” de mortadela e os velhos biscoitos Cream Craker (CRUNCH!) são como a bunda da Mulher-Melancia (adorei esse cacófato: “como-a-bunda-da-Mulher-Melancia”; diga isso em voz alta, é legal!); o Programa do Chaves (e aqui me refiro à nostálgica atração mexicana do SBT, não à agenda política do ditador venezuelano); e os velhos pirulitos Dip n' Lik – aqueles que, diziam as autoridades médicas dos anos 80, davam câncer, apesar de serem tão saborosos.

São amores “brutos” e assim devem ser preservados. Tanto quanto o Pantanal, a juba do leão e o azul dos oceanos.

Que o mundo se modernize, sim...

Desde que não perca o paladar!

* * *

E agora, vamos agir!

Eu mato o Dr. Bactéria e você resgata o sanduíche de mortadela!


Crônica - São Paulo



ELA É O DIABO!




Declarei guerra à Avenida 23 de Maio.

Se o Bin Laden (que Deus o tenha, embora eu ache difícil) declarou guerra ao american way of life e o Capitão Ahab (de “Moby Dick”, o clássico de Herman Melville) declarou guerra a uma baleia cachalote, também posso ter uma guerra irracional contra um inimigo intangível qualquer. E eu quero-porque-quero declarar guerra à Avenida 23 de Maio!

Não me olhe torto, não me culpe: foi ela que começou!

* * *

Esta cobra peçonhenta que se arrasta do centro de São Paulo ao Aeroporto de Congonhas fez por merecer a má-fama. Desde o ano em que surgiu – 1967. Na época, já se criticava suas curvas mal-projetadas e o pavimento traiçoeiro. Prenúncio de que era solo amaldiçoado, destinado a trazer grandes dissabores à boa gente desta cidade...

Meu falecido pai dizia que nem sempre foi assim – apesar do que proclamam os registros históricos. Segundo o meu velho, houve tempo em que era uma delícia rodar por aquelas grandes pistas. Decididamente, sou de outra época: a 23 de Maio está em meus pesadelos desde que tirei a carteira de habilitação. Nela vivi momentos de horror e angústia.

Se a Avenida 23 de Maio fosse uma mulher, seria uma emergente meio-brega, meio chique, imprevisível e temperamental. Bem diferente da Avenida Paulista – uma dama de idade avançada, com tom de voz aveludado, capaz de manter a elegância até em situações extremas de estresse; ou da Avenida São João – uma puta velha e boa-praça, daquelas que fumam e bebem com a gente e que nos entretém com divertidas histórias de alcova.

* * *

Fato é: tirei a 23 de Maio da minha vida. Parafraseando a Fafá de Belém: “te tirei do meu corpo, te tirei das entranhas, fiz um tipo de aborto!”

E até que demorou.

Nos idos de 1994, quase fui abalroado por um fusca bordô que transitava em alta velocidade na contramão da avenida, às 04h00 da manhã; e quando pensei que o pesadelo acabara, joguei habilmente com a direção e invadi a terceira pista – pois, no rastro do fusca bordô, seguia uma viatura policial, perfazendo a mesma rota surreal (creio que estava na captura do fusca). Aquilo era um sinal... E demorei a tomar uma atitude, embora, hoje, minha decisão seja irrevogável...

* * *

Morador da zona norte da cidade desde sempre – e com um histórico de empregos e namoros na região centro-sul da cidade –, sempre fui vítima preferencial da 23 de Maio. Ela é o meu satanás, o meu exu de encruzilhada, o ovo podre em minha marmita.

Só eu sei o que vivi na época em que o Buraco do Jânio (que não se perca pelo nome!) estava sendo implementado. Levava uma hora e quarenta minutos para chegar à casa de minha então namorada, no aprazível bairro do Planalto Paulista. Saía de casa embalado por doces suspiros de amor – mas, ao longo do caminho, era submetido à pressão dos congestionamentos e à bestialidade dos demais motoristas e chegava ao destino transtornado, punhos crispados sobre o volante, olhos vermelhos, instintos assassinos aflorados.

Minha própria namorada não me reconhecia.

A 23 de Maio tinha, sobre mim, o efeito daquela poção que transformava o Dr. Jeckyll no Sr. Hyde.

Era um inequívoco caso de “o motorista e o monstro”.

* * *

A proverbial “gota d’água” se deu em 2005. Eu saía com uma moça de Moema (zona sul de São Paulo), era uma terça-feira e deixei minha acompanhante em casa às 02h00 da manhã. Peguei a Bandeirantes e caí na 23 de Maio certo de que, àquela altura, chegaria em casa em 25 minutos – a tempo de ter uma boa noite de sono e ir trabalhar em paz no dia seguinte.

Qual não foi minha surpresa quando, na altura do Centro Cultural Vergueiro (cujos contornos são avistados da infame avenida), o trânsito se congelou abruptamente – tão abruptamente que quase me espatifei no carro da frente. Toquei o resto do caminho em primeira-segunda-primeira marchas, até a Avenida Tiradentes, sem nunca saber o que causara o congestionamento que ficara para trás...

Pois a 23 de Maio é assim, parceiro: como o Triângulo das Bermudas, seus horrores estão além da compreensão do Homem.

* * *

Desde então – acredite o leitor ou não – só transitei pela Avenida 23 de Maio em duas ocasiões. É que desenvolvi habilidades superiores às de um GPS para traçar rotas alternativas, evitando “a maldita” em prol da Marginal, do centro velho de São Paulo, da Avenida Brasil ou da Avenida do Estado. Qualquer caminho é preferível a “ela” – à avenida para o inferno.

Nem sempre, claro, consegue-se enganar o diabo: há dois meses, fui convidado a participar de um evento em uma livraria paulistana. Local: Shopping Ibirapuera, zona sul de São Paulo. Achei que, por ser um sábado, poderia fazer uma trégua com minha velha inimiga. Seria “off-records”, claro. Ninguém jamais saberia que, contrariando minhas profundas convicções, eu estava novamente aos beijos com “a maldita”. Como um alcoólatra inconseqüente que dá o primeiro gole...

Segui bem por toda a Avenida Tiradentes, cruzei o Paissandu e cheguei a esboçar um sorriso na altura do Viaduto Pedroso.... Mas eis que o trânsito se congelou abruptamente – tão abruptamente que quase me espatifei no carro da frente. Toquei o resto do caminho em primeira-segunda-primeira marchas, até o Shopping Ibirapuera, sem jamais saber o que causara o congestionamento que ficara para trás.

E, claro, perdi metade do evento...

* * *

Bem dizia minha avó: 

“Quem embarca com o diabo precisa navegar com ele.”


terça-feira, 23 de abril de 2013

Crônica - Relacionamentos



AMOR, ESTRÁBICO AMOR




Encontros às escuras são um flagelo da evolução. Pronto, falei.

No princípio, eram apenas o homem, uma tanga de lã e uma lança.

Solto nos campos, o macho era livre para escolher a fêmea que lhe aprouvesse. O amor era “bruto” (no sentido literal do termo) e ninguém precisava discutir a relação. Afinal, nossa linguagem se resumia a dois ou três vocábulos e a uma biblioteca de grunhidos...

Mas a festa acabou lá por volta de 40.000 anos atrás, quando começamos a racionalizar os princípios da atração e da convivência entre os sexos. Os coitados dos homens de Neanderthal foram os primeiros a participar de rudimentares terapias de casal.

Funcionava assim: o indivíduo mais forte da tribo, com um pedregulho de três quilos na mão, incutia juízo na cabeça do cônjuge indeciso ou infiel dando-lhe pancadas no cocuruto. Enquanto isso, a sogra da vítima – macaca temperamental e com o dorso coberto de pelos grisalhos – aplaudia com as quatro patas, dando cabriolas frenéticas. Era seu modo de dizer: “Tá vendo, filha? Eu disse que esse traste não servia pra você...”

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Dar presente de Dia dos Namorados, abrir a porta do carro, pagar a conta do restaurante (ao menos no primeiro encontro, seu pão-duro!), discutir a relação – todas essas coisas foram mesmo avanços notáveis na arte de se relacionar. Do contrário, Átila o Huno teria ganho a vida como conselheiro sentimental e publicado artigos tão sutis quanto iluminadores: “Estupro: Por Que Não?””; “Quem Ama, Escalpela”; “Estacas: o Método Mais Rápido Para Chegar ao Coração de uma Mulher”; e por aí vai...

Mas, em nome do bom-senso, quero reiterar: encontros às escuras são o “ó do borogodó”.

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O problema de ser solteiro é que todos os seus amigos comprometidos, a certa altura do campeonato, vão querer te arrumar uma esposa. Se não for ideia do amigo, será da mulher do amigo. “Ah, mas ele é um cara tão legal! Precisa de uma esposa e de um filho! Toda panela tem a sua tampa!”

De fato, o cartão de crédito resolve esse problema, rapidinho. Por meio dele, pode-se adquirir tampas das mais variadas formas e tamanhos. Tampas orientais, mignons, oxigenadas ou “do tipo americana”; tampas para serem usadas uma única vez e outras que o acompanham em festas e até em viagens ao exterior. Hoje, as tampas vêm de táxi à sua casa (cobram um pequeno adicional para isso). Algumas moram em flats em Moema. E eu conheço duas que “hablan español”.

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Esta visão cínica das coisas nem sempre funciona, claro. Todo solteirão já se sentiu meio amargurado em um Dia dos Namorados. É ridículo, eu sei – mas, às vezes, um comercial da Renner pode deixá-lo na pior... Aquela gente feliz, trocando presentes e correndo no parque ao som de “Unforgettable” (BLEARGGGHHH!), pode ser um soco na auto-estima de qualquer lobo solitário (especialmente, se o lobo não estiver em uma boa fase).

A sensação passa no dia seguinte – de fato, passa no mesmo dia: basta avistar os barzinhos lotados e se dar conta (ao som de “Also Sprach Zarathustra”, tema de 2001 – Uma Odisseia no Espaço) que, este ano, você não precisará encarar aquelas filas. Mas, até lá, a coisa pode ser sombria... 

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Ao longo desses 40 anos, tive um monte de “encontros às escuras”. Dois acabaram bem: assim conheci minha primeira e minha última namoradas, que me fizeram muito feliz e que, de um jeito estranho, viverão para sempre neste velho e combalido coração (Oi, Ju! Oi, Mel!). Mas essas são histórias de sucesso, não de fracasso – portanto, a tendência é a gente apagar o prólogo e guardar apenas as highlights do espetáculo.

As histórias realmente engraçadas são as de encontros às escuras que acabaram em blackout total.

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Como esquecer aquele blind date de 1993, coestrelado pela ex-cunhada de um amigo (ela acabara de sair de um casamento fracassado e, mesmo assim, quis me conhecer – burra!). Era uma morena de lábios finos e belos. Tive tempo de sobra para observá-los, já que, travada, ela não abriu a boca durante duas horas – e olha que fiz de tudo para entabular conversa.

Espere, puxe uma cadeira, peça uma cerveja. A coisa fica pior.

O encontro foi no Bar Brahma, centro de São Paulo, onde se apresentava uma pianista de 120 anos de idade (declarados). O repertório era o “hit parade” completo da época de Don João VI (adivinhe quem sugeriu o lugar? Não fui eu...).

No fim da noite, o gelo derreteu um pouco – o bastante para que a moça de lábios finos e belos se abrisse (infelizmente, no sentido figurado) e desse início a um infindável blá-blá-blá sobre seu malogrado casamento. Sou um profissional treinado e sei sorrir cordialmente diante dos maiores descalabros – veja, já entrevistei o Alexandre Frota e uma Miss São Paulo. Mas, intimamente, minha imaginação voava: visualizava a mim mesmo enfiando a dita cuja dentro do piano da velhinha. Em meu delírio homicida, eu a enforcava com as cordas do piano, só para me certificar de que aquela anta chorona nunca mais caminharia sobre a terra...

* * *

A Internet é outro “campo minado” em se tratando de blind dates. Na época em que tinha conta naquele site de relacionamentos, o Orkut me ensinou a diferença entre “profile” e realidade.

Certa vez – marcado um encontro com determinada fulana no Shopping Morumbi (a premissa: apenas um agradável almoço, todo mundo vestido, coisa bem tradicional), vi-me em uma inusitada fuga pelos corredores do estabelecimento. Com a malandragem adquirida em outras experiências do gênero, prudentemente marquei o encontro em um dos elevadores e perguntei o que minha acompanhante estaria vestindo.

Ao vê-la de trás de uma coluna – e me certificar que o Photoshop faz milagres –, tratei de me escafeder dali rapidinho. Não foi um dos meus melhores momentos, mas – hei! Eu sobrevivi!

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Errar é humano, apesar de não ser recomendável, correto, lógico e sequer aceitável se houver vidas humanas em risco; mas o fato é que tenho outro blind date nos próximos dias. De fato, não sei se vou; pode ser que eu fuja de novo, como um ladrão, já que gato escaldado tem medo de água fria (copyrights: minha avó).

Pode ser uma catástrofe, mas pode ser uma coisa boa. É um daqueles momentos em que a gente se sente o Pensador, de Rodin, perdido em elocubrações. Should I stay or should I go?

Mas, independentemente do que der, talvez seja a hora de baixar a guarda e novamente dar algum crédito àquela máxima adorada pelas mulheres (e também, por alguns fanáticos religiosos): “o amor nos libertará.” 

Palpitando em um tema no qual não sou nenhuma autoridade – veja meu currículo, parcialmente descrito acima –, creio que o amor (o verdadeiro amor, não o das lojas Renner) pouco tem a ver com filhos e casamentos. Talvez seja mais um contraponto fundamental para o torno que nos esmaga dia a dia.

O torno da apreensão, da desconfiança e (principalmente) do isolamento que nos auto-impomos, sempre com os punhos fechados e a guarda levantada.

Parafraseando David Bowie e o Queen naquele hit de 1982, "Under Pressure": o amor é uma palavra antiquada (eu iria até mais longe: "constrangedora"). Mas, em um mundo de tristeza, brutalidade e indiferença, também é algo que nos desafia a ir em frente e a nos importar.

Ok, é ridículo porque sou eu que estou dizendo.

Mas olha o que acontece quando o David Bowie e o Freddie Mercury (saudosa bichona!) assumem o vocal.

É isso aí: “Why can't we give love one more chance?

That’s our last dance!”





Crônica - UFOs, ETs e outros bichos



"OLHEM PARA O CÉU!"




Os extraterrestres já eram.

Quer dizer, se é que um dia chegaram a “estar”.

Contrariando as previsões do filme “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” – que assisti boquiaberto no Cine Paissandu, uns 30 anos-luz atrás –, nenhuma nave-mãe baixou na Terra para promover radicais transformações sociais (por exemplo: presentear-nos com vacinas anticâncer, quebrar a patente da Coca-Cola ou inseminar a Susan Boyle com um embrião alienígena).

Sinto-me enganado: passei anos assistindo a esses filmes idiotas, no que poderia ser um esplêndido exercício de simulação para um encontro com raças superiores, e o que ganhei?

Um monte de cáries!

Afinal, a pipoca do Cine Paissandu era puro refugo, naquele tempo...

* * *

É sério: alguma coisa deve ter acontecido na constelação de Alfa Centauri ou nas luas de Júpiter, pois o cinema americano desencanou geral dos maquiavélicos homenzinhos verdes. Nos anos 50, eles dominavam o telão. O bordão “Olhem para o Céu!” estava na boca do povo e bem-representado em centenas de produções “B” que lucraram os “tubos” com essa paranoia. De vez em quanto fazem remakes desses filmes – ou o tema é engenhosamente reinventado em séries como “Arquivo X” ou “Taken” (aliás, também extintas). Mas a atitude dessas atrações é outra: nem os produtores e diretores parecem mais acreditar em discos voadores. Ninguém em sã consciência continua “olhando para o céu”.

Exceto, é claro, quando está no dentista. Ou se morar em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde as chuvas se tornaram muito mais ameaçadoras que qualquer Alien ou Predador. Ficou decidido e sacramentado: não há vida inteligente fora da Terra.

Alguém pode contestar essa afirmação depois de “Transformers”?

* * *

Agora: se eu me sinto enganado, imagino como ficou o Luizão...

Em outros carnavais – em outra “dobra temporal” –, Luizão era o cara descolado da rua. Nunca tirava notas baixas, nunca ficava de exame, nunca bombou em Matemática. Mais velho que nós, usava camisas sociais quando todos vestíamos cacharrel bordô (nos anos 70) e calças e camisas “OP” (nos anos 80). Passava por nós, impávido, a cabeça esbarrando em outras constelações. Com uma revista “Planeta” embaixo do braço, óculos escuros de grau e uma barba de respeito para sua pouca idade.

Luizão foi o primeiro (e único) “ufólogo” que conheci. Levava muito a sério as teorias do Erich Von Däniken (“Eram os Deuses Astronautas?”). E tinha explicações “racionais” para cada fenômeno da Bíblia.


* * *

“A Arca de Noé era um OVNI!”, declarava Luizão, muito seguro, quase como se recitasse o número do próprio R.G. “A carruagem de fogo de Elias? Um OVNI, também. E não vamos esquecer a destruição de Sodoma e Gomorra...”

“O que é que tem a destruição de Sodoma e Gomorra, Luizão?”, perguntávamos nós, curiosos e previamente aterrorizados com a resposta.

“Ah!”, exclamava o ufólogo da rua, algo impaciente. “Bombas atômicas! Os alienígenas já tinham bombas atômicas naquele tempo. E as usaram para pulverizar Sodoma e Gomorra. Simples. É tudo científico, entendem?”

Nós não entendíamos, mas aceitávamos sua palavra.

Aquele era o Luizão. Praticamente uma Enciclopédia Barsa do “Inexplicável”.

* * *

Nunca mais ouvi falar dele, até que um amigo em comum, Leandro, me disse que Luizão fora entrevistado em um programa da rádio AM (veiculado durante a semana, por volta das 03h30 da madrugada).

“Era o Luizão, eu juro!”, disse Leandro. “O apresentador até se referiu a ele como ‘o ufólogo de Santana'.”

“Não!”, exclamei.

“Pois é!”

“E o que ele disse?”

“Disse que vai haver um contato em pouco tempo...”

“Um contato?”

“Sim.”

“Como assim, um ‘contato’?”

“Um contato. Você sabe...”

“Não sei, não.”

“Tipo...”

“Hum...”

(...)

“Beleza, Edu! Vou nessa, tenho que pegar a Marina no Metrô.”

“Manda um beijo pra ela. Quer carona até a Cruzeiro do Sul?”

“Se não for incômodo...”

“Sobe aí.”

* * *

Ocorre, leitor, que gente como nós – eu e o Leandro – somos “estrelas anãs” nessa galáxia de mistério e terror que tanto intriga pessoas inteligentes e preparadas como o Luizão.

Afinal, o próprio Luizão nos disse, uma vez:

“Vocês estão aqui para fazer a engrenagem girar. A função de vocês na Terra é operacional. Por isso se interessam por sexo, por comprar coisas... Alguns de vocês vão até se casar e procriar. Já eu... já nós...”

“Nós quem, Luizão?”

“Nós, os ufólogos. Estamos nos preparando para sermos a linha de frente quando eles chegarem...”

“Ah...”

* * *

Soube que Luizão se casou há alguns anos. “Como” ou “por que”, nem imagino. Segundo o Leandro, que o vê com alguma frequência, Luizão não está mais interessado nessas revistas com E.T.s, o Caso Roswell ou a Área 51 estampadas na capa. Que eu saiba, tampouco vai ao cinema. Hoje, tem um filho para criar, uma esposa e um emprego digno em uma assistência técnica multi-marcas do Jaçanã.

Qualquer dia, vou lá sacaneá-lo. Colocarei meu celular quebrado sobre o balcão e, muito sério, lhe direi: “Sony Ericsson inoperante... Ajuda! E.T. precisa telefonar casa!”

Quando ele ficar puto, conterei sua raiva com o dedo em riste, apontando para a sala da Gerência.

“Nenhum movimento brusco, homem da Terra. Eu venho em paz. Agora, seja um bom rapaz e leve-me ao seu líder!”



Crônica - Eleições



A MESMA PRAÇA, O MESMO BANCO




Marta Suplicy no horário eleitoral da TV: alguém ainda aguenta? 



Um palhaço, uma guerrilheira, um vampiro, um hippie velho. Sem esquecer a natureba, o turco ladrão, o Quércia (que em si já é uma caricatura) e – o horror, o horror! – Marta Suplicy e Netinho de Paula.

Estas são algumas de nossas opções para as próximas eleições – quando escolheremos o novo Presidente da República, além de nossos futuros governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distrital (no caso de Brasília). E durma-se com um barulho desses, pois, se isto fosse um filme, o elenco inteiro estaria reprovado.

* * *

Já reparou como gostamos de circo?

Não, é sério: gostamos de circo, mesmo. Com lona, algodão-doce, bestas se equilibrando em bolas e tipos circenses por todos os lados.

Intriga-me de longa data o fato de nossas eleições sempre terem essa cara de “Zorra Total” ou “A Praça É Nossa”, com tipos ridículos entrando e saindo do vídeo, dizendo sandices, prometendo o Céu e mais um pouco.

E a pantomima: a viadagem de um, o sotaque turco de outro, o look “Dr. Gori” da Marta Suplicy e os erros de Português de Lula, a grande besta inculta.

Parece coisa do Max Nunes ou, sei lá, dos Irmãos Marx.

* * *

Coincidência ou não, só elegemos “figuras”: sindicalistas, escritores, artistas, mulheres-frutas, o escambau; enquanto, nos países desenvolvidos da “gringa”, o povo vota em gente preparada: via de regra, em administradores.

Será que este não é o “eixo da rolimpinha” para fazer a máquina mudar? Talvez, se adotássemos uma postura mais crítica quanto a quem nos representa, tudo fosse diferente. Pense bem: você delegaria ao Tiririca a administração do seu condomínio? Compraria um carro usado do Paulo Maluf? Convidaria Lula para escrever sua biografia? Escolheria Marta Suplicy para ser mãe dos seus filhos (antes de responder, considere seus antecedentes...)?

Óbvio que não: ninguém quer essa porcaria na vida privada. Então, por que tê-la na vida pública, o que é mil vezes pior?

E não contemos com a perspicácia da mídia especializada para nos indicar o caminho: Zé Simão, colunista-macaco da Folha de São Paulo, apelidou Geraldo Alckmin de “picolé de chuchu” porque o candidato não tinha o “carisma” esperado de um político brasileiro.

Ou seja: em nosso país, quem supostamente “entende do babado” também acredita que político precisa ser personagem – preferencialmente, palhaço. Do eleitor ao analista político, não se salva ninguém.

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Ou antes: se salva, sim!

Tem um monte de gente jovem que visita o “Baú do Edu” atraída pelas notas sobre filmes e música ou pelo viés “palhaço” do mantenedor (que, felizmente, não concorre a nenhum cargo público). Pois essa gente jovem pode mudar todo o esquema.

Não é idealismo barato – é fato: se um maluco não tivesse tido a ideia de inventar a lança, ainda estaríamos queimando a floresta toda para comer javali assado.

Portanto, caríssimo ser imberbe, com disposição de sobra para mudar o mundo: nas próximas eleições, não vote em personagens. Vote em candidatos com capacidade administrativa, pois a força motriz da vida não é o riso – e sim a ordem, seus direitos assegurados, sua dignidade nesta e nas próximas fases da vida.

Que os palhaços, hippies, bolchevistas e naturebas sejam relegados ao seu lugar de direito:

O banco da Praça.


Crônica - Ideologia e Atitude



ESQUERDA, DIREITA, VOLVER!




Assim que nascemos, já somos de Câncer, Touro ou Escorpião. Eis aí a vantagem da astrologia sobre a política: ninguém precisa decidir qual será seu signo astrológico, pois trata-se de um item de fábrica, pessoal e intransferível.

Já a orientação política é um fardo bem mais difícil de administrar. Afinal: ser de esquerda ou de direita é uma escolha do cidadão. Entendeu agora por que o horóscopo é uma das seções mais requisitadas do jornal, enquanto o primeiro caderno é para poucos?

Um indivíduo razoavelmente dotado de intelecto terá grandes dificuldades em escolher uma orientação política. Afinal: há bons e maus exemplos nos dois lados.

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Peguei-me refletindo sobre isso há alguns dias, acompanhando a ridícula “ocupação” da USP por uma malta de filhinhos de papai. Que patético, que triste, aquele gente posando de revolucionária e usando camisas GAP para esconder o rosto (protegiam as identidades de quem? Das mães intransigentes? Das avós cardíacas?) e usando caríssimos mobiles para registrar os bastidores do “conflito”.

É nessas horas que sou de extrema direita. Queria que aquela babaquice demagógica caísse por terra a golpes de cassetete. Queria ver um pouco de arbitrariedade, de ignorância comendo solta. Afinal, um burro só abaixa a orelha em duas ocasiões: quando outro burro fala ou quando é escoiceado por um burro mais forte.

Mas aí, entro em conflito: a rigor, não sou de direita. E mesmo assim, minha tolerância anda “zero” para esse blá-blá-blá auto-indulgente da esquerda.

Será que eu sou normal, doutor?

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Um de meus tios-avôs era de extrema direita.

Direita, não: direitíssima!

Era Mussolinista e me dava medo, embora nunca tenha me tratado mal. Longe disso, era a cordialidade em pessoa.

Nem imaginava o terror que me inspirava com aqueles olhinhos verdes e lupinos, que jamais sorriam e que às vezes se estreitavam como bocas de revólveres. Não era de propósito: meu tio-avô estava apenas “sendo de direita”.

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Sua imagem conjurava todos os clichês que passei a associar à direita: corte de cabelo antiquado (com pega-rapaz e tudo); camisas sociais de manga comprida (mesmo sob o sol inclemente do litoral paulista); cachimbo permanentemente abastecido com fumo sabor chocolate; e – o clichê master do conservadorismo! – meias pretas sociais em toda e qualquer situação.

Meu tio-avô usava meias pretas até à beira do mar. Suponho que também em outras situações, embora isso eu só possa intuir. Fiquei com essa ideia de que pessoas conservadoras usam meias pretas o tempo todo. Talvez por isso, prefira usar meias beges ou marrons. Meias pretas são para casamentos, recepções ou enterros.

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Em contrapartida, em 1994, conheci a versão encarnada da esquerda festiva. Era o noivo da amiga de uma ex-namorada – e acho que o detestei à primeira vista.

Tudo no sujeito era revoltante: o jeito blasé, o olhar de superioridade (uma contradição interessante da “ultra-esquerda” é a mania que seus advogados têm de se julgar intelectualmente superiores aos outros, apesar de propagarem a igualdade) e as intermináveis digressões sobre a “iniquidade do pensamento pequeno-burguês”.

* * *

Obviamente, com tantas reservas quanto ao lado prático da vida, o sujeito não trabalhava. Estava na faculdade de História havia dez anos, sem produzir nada, sem sequer justificar o ar que respirava. Era o tipo de basbaque que encontrava “mensagens ocultas e idiotizantes” em filmes como “Rambo” ou “Duro de Matar” – um sonhador, enfim, que se acomodou nesta fantasia de “1984” para prolongar a infância, para justificar o “dolce far niente” que era sua vida.

Logo percebi que não queria ser aquele cara.

Tanto quanto não queria ser meu tio-avô...

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O que o Mussolinista e o Bolchevista me ensinaram foi que, em política, extremos são territórios a se evitar. O ato de votar nada tem a ver com a emoção de uma final de campeonato – fanatismo em futebol é algo lamentável, entretanto, compreensível, pois o futebol é uma paixão (tanto quanto o amor por motos, o interesse em vinhos ou a mania de viajar ou colecionar selos).

A política, por sua vez, não deve – não pode! – ser uma paixão.

Muito mais sábio é encará-la com a frieza de um cirurgião. Muito mais certo é manipulá-la com a medida exata de cuidado e desdém com que um enxadrista dispõe de suas pedras em um torneio importante.

No xadrez, um bom jogador não tem particular apreço pelo Bispo, pelos cavalos ou pelos peões. Ele os utiliza de acordo com a situação, sempre visando o melhor resultado. Se um bom enxadrista se apega à vitória, e não às pedras, por que o bom eleitor deveria se apegar à esquerda ou à direita, quando o foco deveriam ser os candidatos e propostas que, naquele momento histórico, são melhores para a sociedade como um todo?

Um eleitor consciente não é de esquerda e nem de direita. É as duas coisas – só que nunca ao mesmo tempo.

Tudo depende de “quem”.

Tudo depende de “onde”.

Mais ainda, tudo depende de “quando”.

O resto é conversa para ativista de butique dormir.