ACHADOS E PERDIDOS
O mantenedor deste blog em 1988: um mundo primitivo habitado por orelhões, máquinas de Xérox e outros monstros antediluvianos...
Quem está na casa dos 40 anos (oi, gente!) teve o privilégio
insólito de habitar dois mundos em uma só existência. Sim – dei-me conta deste
“profundo” paradoxo dias atrás, quando saboreava uma refeição caloricamente
incorreta na “Esfiha Imigrantes” da Avenida Dr. Ricardo Jafet. Acompanhava-me
um amigo de longa data e minha afilhada. Diante de nós, pratos fumegantes e
apinhados das famosas “redondas” da casa, em diversos sabores (queijo,
calabresa, carne, escarola; puta que pariu, como aquilo é bom...).
Mas, enfim: dois mundos.
Foi o que eu disse.
* * *
Há um abismo monstruoso entre ambos. E ainda assim,
estávamos lá; enquanto, por outro lado, agora estamos aqui. Totalmente
adaptados, pois não somos tão velhos assim.
* * *
Enquanto os dois dinossauros à mesa recordavam as emoções do
período paleolítico, minha afilhada buscava uma brecha para se embrenhar na
conversa. Sem sucesso, claro – era difícil participar à baixinha a experiência
de ter vivido em tempos tão anacrônicos.
Para início de conversa: nem eu nem meu chapa soubemos
responder a uma pergunta simples: o que fazíamos nós nas tardes dos anos 80
quando não estávamos na escola ou em cursos preparatórios? Não existia MSN; não
existiam redes sociais. Não existiam celulares e nenhuma dessas coisas que,
hoje, nos entretém e nos ocupam em períodos de ócio.
Então, por Deus: o que fazíamos nós nas tardes dos anos 80?!
* * *
Na qualidade de “elos perdidos” entre o mundo analógico e o
digital, os quarentões, muitas vezes, ficam confusos... Não sabem se algumas de
suas memórias são autênticas ou se lhes foram implantadas durante o sono, como
no filme Matrix. Tudo aconteceu tão rápido – um mundo se rendeu ao outro de
forma tão súbita – que nossa vida anterior, da infância aos 20 anos, poderia
muito bem ser uma falsa lembrança. Alguma coisa que “pegamos” de um filme, só
isso...
Existiu mesmo um mundo de máquinas de escrever? Fizemos
mesmo aqueles cursos de datilografia? Podíamos realmente fumar em salas de
aula, maternidades e órgãos públicos? E, meu Deus: como suportamos todas
aquelas sessões de bullying “na prática” (chutes, cuecões, tapas na cara,
cuspidas, socos nas costas) quando as crianças de hoje vão ao psicólogo
simplesmente por serem achincalhadas no Orkut?!
Existiram mesmo os videocassetes? Os carros eram realmente
“carburados”? É verdade que comprávamos “agulhas” sobressalentes para as nossas
vitrolas? Que as novelas da Rede Globo davam 60 pontos de audiência no horário
nobre?
Existiu um homem chamado Cid Moreira? Fausto Silva era um
cara engraçado quando apresentava o Perdidos na Noite? Quem foi Djalma Jorge?
Alguém se lembra de Tancredo Neves?
Eu me lembro!
Acho...
* * *
_ E isso não é tudo. Também usávamos agendas de papel com
capinhas de couro para guardar os telefones das pessoas. Era a única forma de
nos comunicarmos com elas. – disse eu, a certo ponto, abastecendo de
refrigerante o copo da minha afilhada.
_ Eu tenho agenda no celular. Isto vale? – perguntou a
menina, certa de que, com aquela deixa, teria uma chance de participar do
debate.
_ Não, Lu. Agenda de celular não vale. A gente escrevia os
nomes das pessoas nas páginas desses caderninhos. Com caneta esferográfica. E
se chovesse ou se caísse água em cima da agenda, os telefones ficavam borrados.
_ Ah, é? E como vocês falavam uns com os outros quando
estavam na rua? Vocês não tinham celular...
_ Bom, aí, a gente parava em um orelhão (na época, eles
pareciam mesmo com “orelhões”; sabe como é, tinham o formato de orelhas
enormes!). Púnhamos fichas nas máquinas e falávamos com as pessoas.
_ Fichas?
_ É, um negócio desse tamanhinho. Mais tarde, elas foram
substituídas pelos cartões.
A menina fez cara de paisagem. E dali em diante adotou a
postura que eu costumava adotar quando, nas aulas do Cursinho, algum professor
de História encasquetava de descrever dramaticamente a Batalha de Waterloo e a
queda de Napoleão.
(“Que Napoleão, que nada!”, pensava eu, na época. “Quero meu
Walkman!”)
* * *
Computadores? iPods?
Também não tínhamos essas coisas em casa.
Imagine! Computadores só existiam em filmes de ficção científica.
É claro que todo mundo conhecia a IBM; entretanto, não conhecíamos ninguém que
trabalhasse na IBM; que consumisse produtos da IBM; ou que soubesse onde ficava
a IBM!
Na época, o computador era tudo menos um entertainer. Mais
correto seria compará-lo a um intelectual desprovido de senso de humor, com
utilidade “zero” em uma festa. Estas imensas geringonças valvuladas não
disparavam emoticons ou imagens de mulheres peladas. Só cuspiam cálculos,
estatísticas, bases de dados... Um porre.
Antes de comprar meu primeiro “386” (em 15 prestações), o
único computador que vira fora um protótipo de Feira de Ciências. Era o máximo!
Ele fazia contas “de mais” e “de menos”...
* * *
Fax.
Telex.
Rebobinador.
Fita.
Xérox.
Colher-de-chá no gargalo da Coca-Cola (para inibir a saída
de gás).
Bom Bril na antena da TV.
E apenas seis canais – eu disse SEIS CANAIS – para informar
a todos os brasileiros o que acontecia na Terra: o “2” (TV Cultura), o “4” (SBT), o “5” (Rede Globo), o “7” (TV Record), o “9” (Rede Manchete) e o “13” (Rede Bandeirantes). Isso,
claro, em São Paulo (SP), pois cada cidade ou região do país tem sua própria
memória afetiva dos primórdios da TV a lenha, traduzida em números...
* * *
Tudo isso existiu. Eu estava lá e posso dizer.
É verdade que grande parte do "mundo antigo" não
deixou saudades (Bom Bril na antena? Faça-me o favor!). Mas também é fato que
algumas de suas características deveriam ter sido preservadas...
Se precisasse escolher entre um mundo e outro, nem titubearia:
ficaria com o atual. Como imaginar uma manhã de segunda-feira sem me logar ao
Facebook e dar um “alô” aos meus contatos? Ou um fim de tarde sem espiar as
manchetes do UOL Notícias e do Omelete.com?
Mas que a atmosfera do “mundo antigo” era melhor, ah, isso
era!
Sim – pois, no caminho de volta para casa, finalmente me
lembrei do que costumava fazer nas tardes dos anos 80...
Saía para passear com meus amigos nas ruas do centro. Pegava
um filme no velho Cine Olido ou no Paissandu – e na fila, às vezes, até
conhecia uma menina. Deitava meu esqueleto preguiçoso nos degraus da Biblioteca
Municipal, com a vista ofuscada pelo sol e sem medo de ser assaltado. Batalhava
um disco raro na Galeria do Rock e antecipava a emoção de escutá-lo com quem
quer que fosse – um camarada ou um novo amor – na quietude do meu quarto, no
fim de semana seguinte.
Enfim: eu ouvia boas músicas.
Eu assistia a bons filmes.
Eu me educava.
Eu me encantava.